A Brasília que não lê

Quem são esses brasileiros analfabetos residentes no DF?

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Todos os sábados, reservo duas horas para trabalhar com um adolescente que  está matriculado em uma classe de aceleração. Estou certa de que ele vai precisar de ajuda mais específica para tornar-se um leitor autônomo e ser capaz de  enfrentar a leitura de seus livros didáticos.  Não faço muito. Apenas estou  mediando o processo de leitura e escrita para   que eles  se tornem menos opacos para meu amigo.

Em nossa última sessão, trabalhamos com  conto de Bartolomeu Campos de Queirós. Ele leu e em seguida escreveu a palavra “vôo”, assim com o acento circunflexo. 

Corrigi a redação _ Esta palavrinha está escrita com um acento, um acento circunflexo, este que a gente chama brincando de chapeuzinho. Mas a gente não escreve mais “voo”  com acento. 

_ Num tem acento mais não, é? 

_ Algumas palavras tinham acento e agora não têm mais. Quando elas forem aparecendo,  vou mostrando a você. 

E_ E esta aqui?

A palavra era “estádio”. 

_ Esta tem. 

Procurei mostrar a ele que o acento agudo indicava a sílaba tônica.   Alguns minutos para entendermos bem o que era sílaba tônica.

O livro que estávamos usando não era muito antigo. Foi publicado pelo MEC em 2006. Mas a grafia  ainda não havia sido adaptada ao Acordo Ortográfico.

Meu jovem amigo poderia ter-me  dito :  _ Nessa palavra tem acento e é pra gente escrever o acento; nessa outra tem acento, mas não é pra gente escrever o acento.  É melhor vocês resolveram tudo primeiro, pra depois vim me ensinar. 

Não disse, mas eu fiquei pensativa, depois de nosso encontro.

Que grande problema passar por uma reforma ortográfica, em um país com altos índices de analfabetismo:  ajustar os livros, preparar os professores ... 

O pior é que há alguns brasileiros pensando em fazer uma outra reforma, antes mesmo que essa esteja consolidada. Será que têm ideia (sem acento) do custo de uma reforma ortográfica ? Será que já refletiram sobre  todo o gasto feito pelo país para comprar livros , obrigatoriamente com o texto adaptado  à reforma ( O Brasil é o terceiro maior comprador de livros didáticos,  atrás apenas da China e dos estados  Unidos). E o tempo que já se gastou para preparar os professores diante das mudanças?

Em 2001,  a UNESCO  divulgou  o índice de desenvolvimento da educação de 128 países. O Brasil está na 88 a. posição, com  14,6 milhões de  habitantes que não sabem ler. 

Ensinar todo esse contingente de  pessoas a ler não é tarefa fácil. Se fosse, o país já teria resolvido o problema. 

 Só há um caminho para resolvê-lo. Melhorar a qualidade de nossas escolas, torná-las escolas de tempo integral, preparar melhor nossos professores. 

Esforços têm sido feitos, está aí o PNAIC,  Pacto Nacional para a Alfabetização na Idade Certa. 

 Mas certamente que não será por nenhum passe de mágica que de repente todos os brasileiros saberão ler e escrever. E certamente também que não é fazendo nova reforma  ortográfica, para  ‘simplificar’ a ortografia.

Por que será que países como a França e a Inglaterra nunca fizeram reforma ortográfica?  Previnem o analfabetismo, ensinando com empenho as convenções da língua  escrita, cuja grafia está muito longe da pronúncia. Ensinar a ler e escrever é prioridade nacional em seu sistema educacional. 

A última reforma ortográfica no Brasil resultou de um acordo internacional, no âmbito da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.  Estamos na fase de consolidar essa reforma, o que tem de ser feito paralelamente a um esforço nacional para que nossos alunos não saiam da escola ainda analfabetos. 

 Por favor, Senhores Senadores, ajudem o Brasil a se alfabetizar. Qualquer medida que dificultar  esse processo é altamente antipatriótica.  Esta não é hora de se fazer experimentos. É preciso criar as condições para termos uma escola de boa qualidade funcionando em horário  integral. 

 

Stella Maris Bortoni-Ricardo

Professora Titular de Linguística, aposentada

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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