Ontem, domingo, saí para caminhar de manhã. Tenho o mais genuíno prazer de caminhar aos domingos, sem muita pressa, pelas ruas do meu bairro. Quando a caminhada se prolonga ainda tenho tempo de ouvir o programa “Memória musical”, na Rádio Nacional, FM de Brasília, às 11h. A produtora e apresentadora, Bia Reis, entrevista cantores e músicos em geral que nos dão verdadeiras aulas de MPB e de Brasil.
Minha caminhada tinha um destino certo: a banca de revistas, onde eu queria adquirir o livro-dvd “Casablanca”, que é o segundo lançamento de uma edição de filmes clássicos ora em andamento. Casablanca , com Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, dirigido por Michael Curtis em 1942, é um filme de baixo orçamento, que se transformou num ícone do cinema romântico. Contém cenas antológicas como aquela rodada no Rick’s Café em que Ilza ( Ingrid Bergman) pede ao pianista Sam (Dooley Wilson) que toque a música “As time goes by”, e a cena final do aeroporto, muitas vezes parodiada e imitada.
Interesso-me por Casablanca não só porque sou uma confessada cinéfila, especialmente de filmes de amor. Há uma razão familiar também. Meu pai, até o final de sua vida, aos 86 anos de idade, viu e reviu Casablanca mais de cem vezes. Fico curiosa para descobrir qual o efeito mágico que esse filme produzia sobre um cidadão brasileiro, auto-didata ( Ele dizia que seria o último analfabeto na família, e providenciou para que seu desejo se concretizasse). Nunca saiu do Brasil, mas generosamente me propiciou a oportunidade de cursar parte de minha graduação nos Estados Unidos.
Talvez o que o mesmerizasse tenha sido a beleza de Ingrid Bergman. Ou talvez a trama política, durante a Segunda Guerra Mundial. O fato é que, ele também um cinéfilo, nunca apreciou um filme mais do que Casablanca.
Hoje, segunda-feira, tive de deixar a celebração de Casablanca e retomar meu trabalho na formação de professores que sejam agentes letradores. Vejam uma amostra desse trabalho, que também me encanta, ainda que não seja romântico, nestas mensagens trocadas com o professor (E).
Meu nome é E. sou aluno de Mestrado. Por favor, se
Brasília, 30 de março de 2009
possível gostaria que a senhora me auxiliasse no sentido de solucionar uma pequena dúvida minha.
Na minha dissertação trabalho com reescritura textual, analisando textos de alunos. Estudo a reescritura dos alunos motivada pela correção do professor. Ao observar os textos dos alunos e os problemas sinalizados
pelo professor na correção, deparei-me com o seguinte fenômeno: um aluno
escreve nós avistemos, nós aguentemos e nós seguremos e o professor
os destaca. Minha dúvida é como categorizar esse fenômeno: isso poderia
ser considerado um desvio de ortografia? ou há uma denominação especial
para casos de variação como esse?
Meu caro E. as formas avistemo(s), cheguemu(s) etc. são muito comuns na
língua oral no Brasil, especialmente em comunidades cujos membros têm pouca escolaridade e pouco acesso a práticas sociais letradas, e que estão afastadas de centros
urbanos, . Observe que, no pretérito, a vogal temática da
primeira conjugação é e, na primeira pessoa do singular : avistei; cheguei ou seja, um alomorfe da vogal a, que marca a primeira conjugação. Na forma da primeira pessoa do plural, os falantes podem estar
usando a primeira pessoa do singular como paradigma : avistei>avistemu.
Se em sala de aula os alunos estão usando a variante avistemu é porque a têm
em seu repertório oral. Cabe aos professores mostrar a eles as duas variantes e treinar o uso da variante avistamos , que deve ser usada em
estilos monitorados e na língua escrita. Desejo-lhe boas pesquisas em
Sociolinguística. Stella Maris