Uma linguagem sem sotaques regionais

Reportagem do Jornal Hoje em Dia, Brasília de 8 a 14 de agosto de 1997.

Jornalista Luciana Verdolin

 

 “Brasília é o retrato do pluralismo cultural do país.” A conclusão é da professora de lingüística e diretora do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB), Stella Maris Bortoni-Ricardo. Ela é pioneira no estudo das mudanças na linguagem de pessoas que escolheram o DF para morar. Na década de 80, quando fazia doutorado, Stella Maris se interessou pelo tema e defendeu tese sobre as mudanças nos hábitos culturais e lingüísticos dos mineiros do Alto Paranaíba que se mudaram para Brasília.

A professora acredita que a cidade está criando uma linguagem própria. De acordo com ela, “toda situação de contato favorece a neutralização das diferenças.” Como Brasília reúne todas as culturas, a tendência é que a cidade seja cosmopolita com uma linguagem que não se associa a nenhuma região do país. No mesmo caminho da professora surgiram outras teses defendidas pelos seus alunos. Elizabete Hanna, aluna de Stella Maris, estudou a linguagem de famílias vindas do Rio e da Paraíba. Ela concluiu que os adultos podem conservar traços, mas os filhos perdem todas as características regionais.

   Joseph Adant também trabalhou com adultos que vieram de Alagoas para morar em Brasília e concluiu que eles tendem a conservar características regionais, enquanto que nas crianças este processo de transformação é muito rápido.

Já Djalma Cavalcante foi um pouco mais além. Ele concluiu que avaliadores, ouvindo uma mesma frase, gravada por pessoas de diversos estados, conseguiam identificar o sotaque característico das regiões, mas não identificaram qualquer sotaque nos brasilienses.

Para confirmar estas teses, a professora orienta no momento o trabalho de Cíntia Correia, que pretende descobrir até que ponto o brasiliense tem mesmo uma linguagem própria sem sotaques. Ela acredita na confirmação de todas as teses. Segundo ela, o filho de um mineiro do Sul de Minas, nascido ou criado em Brasília, abandona o “r” característico da região.

Semelhanças com a capital mineira

“Uma linguagem universal, sem sotaques”, é dessa forma que a professora de lingüística da UnB, Stella Maris Bortoni-Ricardo, caracteriza a linguagem do brasiliense. De acordo com ela, não há no país, uma linguagem tão sem regionalismo quanto em Brasília.

   A explicação é simples. A professora acredita que como a capital federal ainda está em desenvolvimento, sua cultura também está em constante transformação. Ela ressalta a produção artística de Brasília “que busca uma cara própria”.

   A diversidade cultural na cidade tem sua razão de ser. A maioria da população do Distrito Federal é proveniente de outros estados, que consequentemente trouxe para a cidade outras culturas, valores e vocabulário próprio de cada região. Stella Maris explica que com a mudança, as pessoas, em contato com outras culturas, acabam perdendo um pouco dos “regionalismos acentuados”.

A capital mineira já passou por esta transformação. Stella Maris esclarece que é por isso que o mineiro de Belo Horizonte tem “um dos mais leves sotaques do país”. Como característica do belo-horizontino ela cita o “s” acentuado na pronúncia da palavra mesmo.

A professora acredita que Brasília vem seguindo o mesmo caminho percorrido pela capital mineira, com uma diferença: “a linguagem do brasiliense é ainda mais pura”. Esta é para a professora a razão das crianças em Brasília não conservarem o mesmo “sotaque dos pais”. Ela explica que a variedade cultural faz com que a criança “neutralize as diferenças”.

Stella Maris compara ainda a linguagem do brasiliense com a “linguagem da mídia”. De acordo com ela, a televisão em rede nacional veicula telejornais e comerciais onde os apresentadores têm “este mesmo tipo de linguagem”, ou seja, sem uma característica regional forte, tornando difícil identificar a origem da pessoa.

 

Categoria pai: Seção - Entrevistas

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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