A Brasília que não lê

Quem são esses brasileiros analfabetos residentes no DF?

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O Índice de Gini - indicador de desigualdade de renda - referente ao rendimento domiciliar per capita obtido do trabalho subiu a 0,674 no primeiro trimestre de 2021 ante 0,669 no quarto trimestre de 2020. No primeiro trimestre de 2020, quando a pandemia ainda não tinha afetado tão fortemente o mercado de trabalho no País, o resultado era consideravelmente mais baixo: 0,642. O Índice de Gini mede a desigualdade numa escala de 0 a 1. Quanto mais perto de 1 o resultado, maior é a concentração de renda.(Fonte Internet)

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verdade?

Assustador: dois terços dos estudantes brasileiros não conseguem distinguir fatos de opiniões em textos apresentados no exame do Pisa. Problema tupiniquim? Não apenas. Pesquisas recentes mostram um número não muito distante desse na média mundial: metade dos jovens do mundo todo confundem informações com análises. Em outras palavras, leem e não entendem o que leram.

Para aqueles que acham que há exagero nessa afirmação, complemento: jovens, da geração digital, essa mesma que não desgruda do seu celular, que escreve rapidamente com dois dedões, que se diz moderna, atualizada, que acha que quem nasceu no século XX é dinossauro, essa geração que aprendeu a ler na tela e a escrever sem lápis e papel é composta, em grande número, de semianalfabetos.   Não é que eles tenham uma compreensão diferente do texto lido. Eles não entendem mesmo o que está escrito. Em resumo, não sabem ler. Não é assustador?

Os dados acima decorrem de pesquisa realizada pela OCDE (Organização para cooperação e desenvolvimento econômico) e saiu publicado pela BBC. A conclusão a que se chega é que simplesmente ter nascido e vivido em ambiente digital não habilita ninguém a saber pesquisar e identificar informações confiáveis.

A pesquisa da OCDE revelou ainda um dado que reforça os estudos de vários especialistas, particularmente de Maryanne Wolf, autora de um  livro essencial: O cérebro no mundo digital: que os jovens que leem livros impressos retém mais e melhor as informações e as análises da obra do que aqueles que o fazem apenas em ambiente digital. Wolf demonstra no seu livro como e porque se dá o processo mental que beneficia mais o leitor de livros em papel. A pesquisa da OCDE constata que isso ocorre também entre os jovens.

Não que nas gerações anteriores não haja ignorantes. Eu não cometeria a descortesia de nomear pessoas que ainda acreditam em coisas absurdas como que a Terra é plana, que cloroquina é melhor do que vacina contra Covid19, que o nazismo era de esquerda... O simples fato de negacionistas ainda terem audiência e as pessoas aceitarem fake news acriticamente é suficiente para demonstrar que ignorância não tem idade. Mas estamos falando de algo diferente: jovens, formados na cultura digital, não entendem o que leram nem em ambiente digital. E agora?

Ora, agora é não ser ingênuo, mas não ser catastrofista também. Constatar os problemas é o primeiro passo para soluciona-los. Dentro e fora das universidades (mas, principalmente, dentro) tem gente preocupada em formar não apenas uma geração de alfabetizados, mas gerações de letrados. A grande educadora Magda Soares fala em “alfaletrar”. Formar gente capaz de ler, entender o que leu, incorporar o conhecimento ao seu arsenal de habilidades. Isso pode e deve ser feito em todas as escolas, não tem por que ser um privilegio de colégios de elite. E, acreditem, isto já está sendo feito em muitas escolas brasileiras.

Na mesma direção e sentido podemos lembrar de uma série de iniciativas que estão sendo feitas para promover a leitura de livros. Pequenas livrarias estão pipocando  em diferentes pontos do país, inclusive em cidades menores e distantes de grandes centros. Em alguns casos são conjugadas a cafés, em alguns trabalha-se apenas com livros usados, em outros são limitadas a obras de ficção, ou de História, não importa. Acabam se tornando centros de referência cultural do bairro e uma opção para a população. Praças em várias cidades estão ostentando uma iniciativa muito interessante: coloca-se uma casinha ou uma geladeira usada reciclada, com uma portinhola e um conjunto de livros doados dentro. A regra é pegar o que se deseja e deixar lá outros livros, também usados, em troca. Você abre mão de obras que já leu e não faz questão de conservar em casa e tem acesso a outras que podem interessá-lo. Dezenas de praças tranquilas onde as pessoas fazem caminhadas e crianças brincam ao ar livre são espaços onde esse tipo de “pombal” aparece, graças à inciativa de cidadãos cultos e socialmente preocupados.

Clubes de leitura estão pipocando por todo lado e tornam-se ponto de encontro para todas as idades. Muitos deles promovem a discussão de ideias, exigindo o aprofundamento das leituras.

Claro que iniciativas isoladas não irão resolver o problema da leitura em nosso país. Mas prática cidadã não se resume a vociferar contra os políticos, o sistema de justiça e a desigualdade social. A ação concreta dos cidadãos é mais eficiente do que se arvorar a “comissário do povo”, dono da verdade.
 


Jaime Pinsky: Historiador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 

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