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O ensino médio nas escolas do país está estagnado desde 2011 em patamares abaixo do previsto pelo Ministério da Educação (MEC), enquanto os anos finais do ensino fundamental também não alcançaram as metas, segundo avaliação nacional realizada pelo governo.

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Nesta quinta-feira (8), o ministério apresentou o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2015. O levantamento aponta que o ensino médio segue estagnado na média das escolas do país com índice 3,7 e não atingiu a meta de 4,3. O patamar se mantém desde a avaliação realizada em 2011.

Do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental, chamado de ensino fundamental 1, o Brasil alcançou Ideb de 5,5 e bateu a meta que era 5,2. Entretanto, no ensino fundamental 2, que compreende do sexto ao nono ano, o Brasil mais uma vez não cumpriu a meta nacional que era de 4,7, ficando com Ideb de 4,5 (veja gráficos abaixo).

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 Eu queria saber muitas coisas e ter lido muitos livros para escrever uma crônica definitiva sobre a eleição do Trump. Minha crônica definitiva sobre a eleição do Trump destrincharia as motivações profundas do eleitorado norte-americano e daria um prognóstico preciso do futuro –não sei se otimista ou desolador.

"Calma, não é nada, o gamão institucional formulado pelos 'Founding Fathers' abaixará o topete do bufão". Ou: "Comecem a estocar Miojo e atum, amigos, pois o Demo de 'comb over' vai encabeçar um neofascismo global, vai espargir ogivas nucleares pela terra, vai encorajar reversões em todas as políticas pró-minorias ao redor do mundo e vai se comportar de tal maneira em relação às mulheres que os 'Bunga Bungas' do Berlusconi em breve parecerão as homilias do papa Francisco".

Minha crônica definitiva sobre a vitória do Trump seria um retrato tão amplo do nosso tempo que traria, no vácuo, explicações para a vitória do Dória e do Crivella, o impeachment da Dilma, os caninos do Bolsonaro, o silêncio da Marina e revelaria o sentido oculto de 2013. De quebra, faria uma tomografia no juiz Sérgio Moro: um revolucionário que está desafiando o status quo e moralizando a política brasileira ou um ególatra sectário que atropela a lei de acordo com seus objetivos, interessado apenas na corrupção do PT e seus aliados?

 Aqui, na crônica que eu queria escrever, eu entraria com uma análise matadora sobre os erros e acertos da esquerda brasileira nas últimas décadas, sem ser indulgente com o Mensalão, o Petrolão ou a recessão nem cobrir com lama e óleo os inegáveis avanços sociais.

Aí faria uma crítica à direita, mas separaria os verdadeiros liberais que acreditam na iniciativa privada para melhorar a vida das pessoas daqueles que hoje, como no século 19, usam argumentos do liberalismo –o Estado não deve se meter nos negócios privados- para defender a manutenção da escravidão.

A escravidão me lembraria da passagem do Joaquim Nabuco musicada pelo Caetano Veloso, de onde eu saltaria pro Spike Lee, pro Charlie Parker e chegaria no Pelé. De Pelé pra Carlos Alberto, de Carlos Alberto pra Neymar, de Neymar pro coque do Firmino, que sugeriria um comentário sobre o lenhador da Federal. O lenhador nos enviaria ao Canadá, país para onde milhares de americanos pretendem fugir desde a vitória do Trump e que acabou de perder um de seus filhos mais ilustres, o cantor e escritor Leonard Cohen.

A minha crônica definitiva sobre a vitória do Trump terminaria bem longe do Trump, com os pés mergulhados nas águas azuis da ilha grega em que Cohen viveu e se apaixonou por sua musa, Marianne. Eu citaria uns versos bem bonitos escritos pra ela, unindo temas aparentemente tão antagônicos como Deus e sexo, amor e liberdade, e os versos contaminariam retroativamente toda a crônica, feito o azul subindo por uma tirinha de papel mergulhada em anilina.

O azul do Leonard Cohen, o azul tanto da sua melancolia sagrada quanto do mar da Grécia se sobreporia aos antagonismos da política, aos ódios ancestrais ou de ocasião, à toda pequenez.

 

Hoje eu acordaria, iria à padaria comprar o café da manhã e um senhor me cumprimentaria. "Moro aqui no bairro. Não gosto quando você escreve sobre política, mas com essa eu concordei. Parabéns". Nos apertaríamos as mãos e nos desejaríamos um bom domingo: assim eu gostaria que terminasse a minha crônica sobre o Trump. 

Fonte : Mário Prata na FSP, 13/11/2016

Ilustração : Adams Carvalho

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EDUCAÇÃO

Bernardete Gatti: "Nossas faculdades não sabem formar professores"

Uma das maiores pesquisadoras em Educação do Brasil diz que a mentalidade predominante nos cursos de pedagogia é anacrônica e não atende às demandas sociais do país

FLÁVIA YURI OSHIMA

06/11/2016 - 10h00 - Atualizado 06/11/2016 11h25

 

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A professora Bernardete Gatti, de 74 anos, interessou-se por formação de professores na década de 1960, quando ninguém no país falava no assunto. Saiu pelo mundo em busca do conhecimento que ainda não existia aqui. Fez seu doutorado na Universidade de Paris, seguiu para o Canadá, para um pós-doutorado na Universidade de Montreal, e para os Estados Unidos, para outro pós-doutorado na área, desta vez na Universidade da Pensilvânia. Deu aulas de psicologia da educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Hoje, coordena as pesquisas da Fundação Carlos Chagas. Defende, sobretudo, que nenhuma formação de professores pode ser eficaz sem ênfase nas práticas de como ensinar – algo que não ocorre nas faculdades. Bernardete é a favor da criação de um exame nacional para professores, do aumento de salário, como peça-chave para mudar o perfil dos candidatos à profissão, e de avaliações constantes de professores, atreladas à remuneração.

 

ELA PERSEGUE RESULTADOS

Bernardete Gatti, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas. Há 50 anos, ela se dedica ao estudo do aprimoramento dos professores  (Foto: Anna Carolina Negri/ÉPOCA)

ÉPOCA – O que falta na formação para professor?
Bernardete Gatti –
O problema da formação de professores começa na faculdade. Os docentes de pedagogia e das licenciaturas – de matemática, língua portuguesa, biologia etc. – não sabem ensinar para quem dará aula. Isso porque eles mesmos não aprenderam como fazer isso. Para não dizer que a formação didática não existe, podemos dizer que ela é precária. A maioria dos futuros professores não aprende como lecionar. Não recebem na faculdade as ferramentas que possibilitarão que eles planejem da melhor forma possível como ensinar ciências, matemática, física, química e mesmo como alfabetizar. Muitos de nossos professores saem da faculdade sem saber alfabetizar crianças. É um problema grave.

ÉPOCA – Muito já se discutiu sobre como melhorar essa formação. Por que esses cursos não mudam?
Bernardete –
A gente constata em entrevistas e em pesquisas com docentes das faculdades que eles não têm a noção de que estão formando um profissional da Educação, que vai para a sala de aula lidar com crianças e adolescentes. Eles trabalham para formar intelectuais e pesquisadores. Até certo ponto isso é importante. Mas essa é apenas parte da formação. É preciso focar também na prática social nas escolas. Dizer para os acadêmicos que eles têm de formar professores para a sala de aula chega a escandalizá-los. Muitos encaram essa questão como algo menor. Essa mentalidade vem de longe, lá dos séculos XVI, XVII. E até hoje prevalece. 

>> As lições do professor que transforma crianças carentes em campeãs de matemática

ÉPOCA – Quais são os exemplos que podem nos inspirar?
Bernardete –
Há iniciativas bastante interessantes na Austrália, em alguns locais nos Estados Unidos, na França, na Bélgica e na Itália. Essas iniciativas têm em comum o fato de preservar a vivência em sala de aula do professor universitário. Aquele docente que formará o professor trabalha em pesquisa, dá aula na universidade, mas não perde o vínculo com o que ocorre na educação básica. Isso é importante porque, à medida que as coisas mudam – e tudo muda sempre –, o conhecimento muda e as relações educacionais também. As novas gerações trazem culturas diversificadas. Quem formará os professores tem de frequentar a educação básica para acompanhar esse movimento e manter-se em sintonia com as vivências escolares.

ÉPOCA – Os cursos de pedagogia e de licenciatura proliferam nas instituições de ensino superior. Os problemas mudam de acordo com o tipo de faculdade?
Bernardete –
A maioria dos professores hoje é formada por instituições de natureza privada (80% deles). Em muitas delas, os cursos são encurtados  e, de certa maneira, aligeirados. Esse encurtamento não é permitido por lei. Ele ocorre porque as aulas podem ser substituídas por seminários culturais e atividades programadas. O problema é que esses eventos não são desenvolvidos a contento. Grande parte da formação é feita à distância. O aluno que passa por esse tipo de faculdade sai com precárias condições de entrar numa sala de aula. É despreparado, especialmente, para trabalhar com alfabetização. Por isso, vemos esses resultados de alfabetização problemáticos no país (13 milhões de pessoas não sabem ler e escrever. Uma em cada cinco crianças de 8 anos não lê).

>> Maria Helena Guimarães: "Há um tédio generalizado entre os alunos do ensino médio"

ÉPOCA – Um professor precisa passar por um estágio obrigatório de 400 horas. Esse período é suficiente para dar a experiência de sala de que os professores precisam?
Bernardete –
A questão principal é que essas 400 horas não são cumpridas como deveriam. A pesquisa de campo mostra continuamente que esses estágios são feitos a toque de caixa. Não há controle algum se as horas foram cumpridas, se o estudante estagiou mesmo ou se simplesmente a declaração de que ele estagiou foi assinada por alguma instituição que nunca o teve em sala de aula. As faculdades não providenciam convênios com escolas ou redes para fazer um projeto de trabalho dos estagiários junto aos professores da rede. Um complicador é que  60% dos cursos de pedagogia são feitos à distância. Nesse modelo, o estudante perde muito da relação com as crianças. Sem um programa de estágio estruturado, esse déficit na formação só aumenta.

ÉPOCA – Em carreiras como Direito e medicina, o aluno que conclui a faculdade tem de fazer um teste rigoroso que mostre que ele aprendeu o que precisa. Isso poderia ser aplicado também aos candidatos a professor?
Bernardete –
Seria factível tanto para a pedagogia quanto para as licenciaturas ter um exame nacional para professores. Isso foi ensaiado na fase em que Fernando Haddad foi ministro da Educação (2005 a 2012), tanto que os pressupostos de um exame dessa natureza estão prontos lá no Inep (órgão do governo responsável pelas avaliações de Educação do país). Mas não foi adiante porque há muita resistência e interferência política em relação a isso. Não sei se essa seria uma solução. Mas um exame nacional como o da OAB seria  um indicador do nível de formação de nossos professores.

"Um exame nacional para professores como o da OAB seria um indicador do nível de formação de nossos profissionais

ÉPOCA – É possível sanar o déficit de formação que os milhares de professores em serviço carregam?
Bernardete –
Com esforço muito grande. Os alunos saem da faculdade para a sala de aula com uma formação tão precária que os esforços de especialização são punidos. O problema é que temos uma distorção. Como as faculdades são muito ruins, o que deveria ser uma especialização vira uma formação básica dada quando o professor já tem alunos em sala. A formação continuada deveria ser um aprimoramento, uma forma de enriquecer as aulas que ele já deveria saber conduzir. Isso não acontece. Então, bancamos cursos para formar alfabetizadores, cursos para dar iniciação em matemática, cursos para professores de ciências. Estados e municípios não têm condições de programar e de controlar o que é feito nessas formações continuadas, e os resultados educacionais continuam sendo bastante precários apesar de todo o dinheiro investido – que não é pouco.

>> A escola que ensina a sonhar

ÉPOCA – O que tornaria essa carreira mais atraente?
Bernardete –
Olha, muita gente já disse que maior remuneração não faz tanta diferença, mas eu sou contra. Para mim, remuneração é chave. Aumentar os salários é fundamental para valorizar a profissão, para trazer gente mais bem preparada para a sala de aula e para fazer os que já estão nela correr atrás de melhorar. Ninguém escolhe uma carreira só por ideologia. Você olha o que será seu futuro profissional. E a carreira do professor, em geral, não delineia um futuro muito bom. Ela cria uma armadilha. Para o professor avançar em termos de salário, ele é obrigado a deixar de ser professor para ser coordenador ou ser diretor. Tem de abandonar a sala. Isso ocorre justamente quando ele já tem experiência em dar aula. Acho que a carreira tem de dar incentivos para que ele se mantenha na sala. 

ÉPOCA – Qual sua opinião sobre a estabilidade? Ela compromete a qualidade?
Bernardete –
Essa é uma discussão complexa. A vantagem da estabilidade é que se pode investir bastante no professor porque ele ficará na rede. Ela prejudica o desenvolvimento do profissional porque pode gerar muita acomodação. Agora, repito, num país como o nosso, a estabilidade é uma questão complexa, que tem de ser discutida em profundidade. Não dá para dizer: “Sou contra ou sou a favor e pronto”. Uma ação eficaz para garantir a estabilidade sem comprometer a qualidade é acompanhar com rigor o estágio probatório de três anos (até então o professor não tem estabilidade) e estabelecer pontos de passagem na carreira atrelados a aperfeiçoamento, aumento de qualidade da aula e remuneração.

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Truque sujo no Enem

 

06/11/2016  02h00

Há pais cegos, mas por quererem. Passei horas estudando o ranking do Enem. Descobri o que não está na superfície: para uma escola ir bem, basta participar de uma farsa.

A número 1 no ranking, uma pequena filial do Objetivo, com sufixo qualquer, participou com 41 alunos! Ora, se pegarmos a escola real deles, que fica no mesmo famoso endereço da av. Paulista, com 280 alunos participantes, a classificação cai para o 547º lugar.

Não é diferente com a plataforma Eleva, que se gaba de ter nas suas unidades do Rio, Pensi, 4 das 15 escolas mais bem avaliadas. Lá a estratégia é mais discreta: fazer turmas mínimas com alto grau de filtragem.

Depois, é só usar essa elite para fazer de conta que o resto é tão bom quanto. O investidor da plataforma, Jorge Paulo Lemann, um cidadão honesto e vencedor, não se deu conta do que estão fazendo em seu nome.

Não é irregular, nem fora das regras do Enem, mas é um engodo perante os pais. Há que se perguntar: a quem interessa? Por que o Inep não força a fusão das notas dessas escolas, que já seguem o modelo "cursinho asiático trucidante"?

Causa espanto que as escolas públicas se deem mal nesse sistema de decoreba? Ora, o famoso Objetivo, em 547º lugar, não é muito diferente da maioria das escolas públicas -isso sim é fascinante.

Qualquer escola é capaz de filtrar alunos vencedores de olimpíadas matemáticas, sob o comando de professores sargentos de prova.

Interessante observar que os empresários estão mandando cada vez mais na educação. Os do ramo e, nos últimos dez anos, também os de fora do ramo. Uma coleção de entidades empresariais, cada qual com sua vaidade pessoal, tem "ensinado" que a boa educação depende de boa gestão.

Isso, contudo, é uma balela. Depende de mudanças conceituais na metodologia obsoleta.

Aliás, depois de uma década investindo pesado no teste Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), o Brasil passou de 56º para 58º no ranking mundial, entre 65 países.

Não que o Pisa seja isento da mesma fraude. É só olhar a progressão: no começo, tinha Finlândia lá em cima, como também Suécia, Suíça e Holanda. No último ranking, só dá ditadura.

Dois terços dos primeiros dez lugares são tomados por países em que não há liberdade para o aluno, seja para escolher ou ser feliz. As nações asiáticas dominam o ranking, e o massacre dos jovens é imperioso.

Muitos alunos da Coreia do Sul, por exemplo, têm um turno triplo: oito horas de escola seguidas de cursinho por quatro horas. E depois, lição de casa. O canal britânico BBC mostrou que muitos dormem às 2h e acordam às 6h30, para recomeçar tudo.

É com esses países que o Brasil oficial, fomentado por empresários, quer concorrer no ranking.

A escola, não só no Brasil, está presa numa pantomima que parece interessar a todos. O conteúdo que cai nas provas é reduzido, não chega a 1% do que o Google possui sobre aquele assunto. Dessa amostragem mínima, eivada de bobagens (fórmulas matemáticas de segundo grau e decorebas de química ou biologia), submetem-se os alunos a enfadonhas sessões de releitura de apostilas obsoletas.

Professores fazem de conta que ensinaram. Alunos fazem cara de que aprenderam. Pais e sociedade babam em rankings do Enem.

Até no Enade, que avalia as universidades, existem ardis -alunos são mantidos em recuperação e outros avançam antes da hora para melhorar a pontuação geral.

Quantos alunos já não foram incentivados a não fazerem as provas? Quantos testes de recuperação não foram marcados para a mesma hora dos exames oficiais?

A reforma do ensino médio segue a mesma toada. Reconhecendo-se o fracasso, faz-se apenas uma redução de disciplinas. Pensando bem, elas nem deveriam existir num mundo em que só interessa saber questionar -e procurar no Google.

Afinal, queremos formar cidadãos livres e pensantes ou seguir o Enem e o Pisa no embate dos conteúdos e rankings embrutecedores?

Olho vivo, meus caros pais. Vocês também participam dessa tramoia.

RICARDO SEMLER, empresário, é sócio da Semco Partners e fundador do Instituto Lumiar, que administra as escolas Lumiar. Foi professor visitante da Harvard Law School

Fonte: Folha, 6 de novembro de 2016

Tendências/Debates

 

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Educação pública, gratuita e de qualidade, para todos, desde a educação infantil até a universidade.

Essas são palavras de ordem  dos diretórios acadêmicos e movimentos representivos dos estudantes, há muitos anos.  Nas últimas décadas testemunhamos um crescente empenho entre as famílias brasileiras de que seus filhos frequentem  escolas regularmente. É comum que famílias do campo venham a se radicar na cidade “para mandar  as crianças para a escola”.  Décadas atrás os pais  chegavam a impedir meninas de aprender a ler  a fim de mantê-las mais isoladas em casa, longe de namorados. Mas essa mentalidade já  ficou anacrônica juntamente com o espartilho, os cabelos longos  e as camarinhas (quartos de moças situados depois do quarto dos pais, sem passagem externa)

Hoje em dia, felizmente, a família está ciente de que só se pode almejar um futuro melhor para os filhos e filhas se eles forem para a escola.

A par dessas mudanças culturais de mentalidade,  as metodologias de ensino e a didática também passaram por mudanças , o trabalho pedagógico ganhou um pouco mais de qualidade  com  programas de  formação continuada de professores e com o acesso, quase universal, de livros didáticos às salas de aula. Mas há um item que é muito  prejudicial para a qualidade desse trabalho :  a falta de  compromisso com aulas efetivas em todos  os dias letivos .Falamos das suspensões de aula em razão de dezenas de motivos : a professora está de atestado, falta água, falta luz, o ônibus quebrou, o telhado  está precário e pode cair com as chuvas, e muitos outros.

Agora chegamos ao paroxismo: grupos de alunos resolveram acampar dentro das escolas, o que inviabiliza o uso das salas para funcionamento de zonas eleitorais e reuniões comunitárias nos feriados.  Mas o mais grave é a impossibilidade  de aplicação  de exames que compõem sistemas de avaliação de larga escala, como o ENEM, O MAIS IMPORTANTE DE TODOS, QUE MOBILIZA MAIS DE OITO MILHÕES DE ESTUDANTES.  Eles pretendem usar a nota do ENEM para ingresso nas universidades e fazer jus a bolsas ou financiamentos.

Aplicar o ENEM  em tempos normais já é uma tarefa muito difícil, dada a sua magnitude.

Essas incertezas atuais tornam a tarefa dificílima. É claro que  os estudantes  invasores não estão tendo aulas regulares.  O prejuízo acadêmico é imenso.

E tem mais: agora as universidades também estão invadidas, como é o caso da reitoria de UnB.

Não consigo entender como estudantes comprometidos com a educação de qualidade estejam causando tal prejuízo  à qualidade da educação . A falta de  aulas e atividades  pedagógicas vai deixar, inexoravelmente, lacunas em sua  formação . Mesmo que as aulas sejam repostas, essa pausa-protesto vai ter consequências no curto prazo, porque os conteúdos pedagógicos não estão sendo ministrados; no médio e longo prazo porque haverá atraso na conclusão do ensino básico, acarretando despesas extras.

O que pensam os pais dos invasores ? Têm noção dos riscos em que os jovens estão incorrendo? E surge aí também um outro tipo de custo Brasil : uma geração de profissionais  cuja formação básica está ficando prejudicada e  incompleta . Os próximos IDEBs vão refletir essas férias forçadas em mês letivo.

Stella Maris Bortoni-Ricardo é professora aposentada da Universidade de Brasília, onde trabalhou sempre 
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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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