A Brasília que não lê

Quem são esses brasileiros analfabetos residentes no DF?

Leia Mais

Projeto Leitura

O Projeto Leitura, tem como objetivo vencer um dos maiores desafios encontrados pelos professores e amantes da literatura: Criar o hábito da leitura.

Leia Mais

Projeto LEF

Projeto LEF Confira artigos, trabalhos, Vídeos, Fotos, projetos na seção do Letramento no Ensino Fundamental.

Leia Mais

Blog

Vamos hoje trabalhar com dois textos bem elaborados por uma aluna do ensino fundamental e um aluno do ensino médio sobre o filme "Assassinato no Expresso Oriente", baseado na obra homônima escrita por Agatha Christie.

O filme é protagonizado pelo detetive belga Hercule Poirot, interpretado pelo ator Kenneth Branagh, que também é o diretor. Além dele, o filme contou com os astros Johnny Depp e Daisy Ridley. 

Texto 1:

“O que começa como um luxuoso passeio de trem pela Europa rapidamente se desdobra em um dos mistérios mais elegantes, tensos e emocionantes já contados.

‘Assassinato no Expresso Oriente’ conta a história de treze estranhos presos em um trem, onde todos são suspeitos. Um famoso detetive deve correr contra o tempo para resolver o quebra-cabeça antes que o assassino ataque novamente.

O filme tem uma vibe bem misterioso (sic) e dá a vontade de querer desvendar os mistérios e segredos junto com o famoso detetive, pois todos que estavam no trem era (sic) uma pista para quem realizou o assassinato.

Ao final desse grande caso, ninguém esperava que todos que estavam no trem fossem o assassino. Depois do detetive fazer essa descoberta e juntar todos os pontos que já tinha achado, ele descobre o assassino, o seu trabalho não acaba por ali pois também é chamado pra resolver um caso de assassinato no rio Nilo, que também já é previsto como um novo filme.”

A redação, escrita por uma aluna do nono ano, é primorosa. No parágrafo introdutório, de natureza avaliativa, a autora procura despertar o interesse do leitor usando adjetivos: “... mistérios mais elegantes, tensos e emocionantes...”.

O segundo parágrafo é factual e resume a história. Observe-se no terceiro parágrafo o uso do neologismo “vibe”, cujo gênero ainda não aparece definido. Encontra-se aí a única questão que poderia merecer um correção escolar: “... todos que estavam no trem era (sic) uma pista...”. O sujeito imediatamente anteposto à forma verbal recomenda a flexão dessa, no entanto, é possível concordar a forma do verbo “ser” com o predicativo. A autora não conhece a regra e, ao reler o texto, avaliou a sentença como errada. A professora lhe mostrou que a forma usada também é aceitável no contexto sem, contudo, fazer referência à função sintática de predicativo. Foram dados alguns exemplos:

                        Aqueles meninos era/eram um problema

                        As revelações era/eram motivo de discórdia

Concluindo, cabe observar o parágrafo final que traz uma referência a um outro livro/filme de Agatha Christie. Uma feliz estratégia.

Texto 2:

“Poirot é um excelente detetive que está indo de férias para (sic) Europa, mas um assassinato interrompeu seus planos.

Um passagero (sic) foi assassinado por alguém que está dentro do trem, então Poirot tenta desvendar o mistério de quem é o culpado.

As pistas eram confulsas (sic) e apontavam sempre para uma pessoa diferente, mas em toda essa busca Poirot descobriu que o homem morto era um assassino que havia raptado uma garota e pediu uma recompensa para os pais da garotinha, e logo em seguida que recebeu a recompensa matou a menina.

Os pais da garota se mataram depois da perda e Poirot percebeu que todos os passageiros eram de alguma forma ligados aos pais que teve (sic) a filha morta, e que não havia um assassino mas vários assassinos.

Todos os passageiros mataram o assassino por causa da perda da garotinha e de seus pais, mas Poirot não os entregou para a polícia, pois entendeu a ação deles.”

A redação, muito bem escrita, inicia-se apresentando o protagonista da história e já antecipando o clímax. Nesse parágrafo o substantivo próprio “Europa” requer um artigo definido.

Observem-se os problemas de ortografia: “passagero” e “confulsas”. No primeiro, o aluno redigiu a palavra como é pronunciada, isto é, com a monotongação do ditongo “ei”, que no contexto é praticamente categórica. O segundo é um caso de hipercorreção, vejam-se as palavras “avulsas”, “expulso” e “impulso” etc.

A professora chamou a atenção do aluno para a concordância na frase: “...todos os passageiros eram de alguma forma ligados aos pais que teve (sic) a filha morta...).

A redação se fecha com um parágrafo conclusivo, que traz o desfecho do filme. 

Categoria pai: Seção - Blog

Decidi levar os jovens alunos que participam de meu projeto “Superando o analfabetismo funcional “(CNPq)  para ver a cinebiografia do ilustre Primeiro- Ministro inglês  Winston Churchill . ( 1874-1965). Antes de irmos para o cinema, tivemos uma longa conversa. Primeiro fomos localizar no mapa  o país de Winston Churchill . Em seguida nos familiarizar com as denominações : Reino Unido, Grã Bretanha e Inglaterra. Reino Unido é o termo usado para descrever Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales, que, juntos, formam o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, que é um Estado soberano. Cumprida essa etapa, era preciso aprender sobre o regime de governo na Inglaterra. O que fazia e ainda faz um (ou uma) primeiro-ministro naquele país? E o que faz o rei ou rainha ? Nos tempos presentes temos uma rainha. . Qual é o seu nome ? Rainha Elizabeth II. Quando Winston Churchill foi primeiro-ministro o rei era o pai da atual rainha. Fomos depois ao Google para aprendermos o nome do atual primeiro-ministro inglês. Aprendemos que o cargo é ocupado por uma senhora, Teresa May, para então concluir que na Inglaterra há um rainha e uma primeira-ministra.  Para fechar a conversa , falamos brevemente sobre o regime de governo no Brasil. Nosso país  já foi uma monarquia, como a Inglaterra. Durante muitos anos, o Brasil foi governado pelo Imperador D. Pedro II. Mas depois, quase no final do século XIX, tornou-se  uma república. Com todas essas informações, fomos para o cinema. Em breve os estudantes vão-me entregar uma redação sobre o filme. 

 

Categoria pai: Seção - Blog
A grande novidade da educação brasileira este ano é o início da implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Especialistas comentam as perspectivas trazidas pelo documento
Os próximos dois anos trarão o desafio da implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O documento que norteará a elaboração de currículos de escolas públicas e privadas de norte a sul do país, homologado em dezembro do ano passado, é a grande novidade da educação em 2018. O caminho para que as diretrizes previstas na Base cheguem até as salas de aula não será fácil. Segundo especialistas, ainda este ano, as mudanças que a BNCC promoverá levarão gestores e professores a uma reflexão sobre o ensino e sobre as transformações a serem feitas com o objetivo de melhorar o sistema educacional.
 

Professora do Departamento de Métodos e Técnicas da Universidade de Brasília (UnB), Stella Bortoni classifica a BNCC como um avanço na história da educação brasileira, não só no que diz respeito aos métodos de ensino, mas também ao conjunto de valores que formam os cidadãos. Ela reconhece que o documento, por si só, não resolverá todas as mazelas da educação brasileira, mas considera um primeiro passo, com novas perspectivas para os próximos anos. "As dificuldades na área da educação estão relacionadas aos problemas sociais e regionais. O documento vai ajudar na melhoria de algumas lacunas e contribuir para que todos os alunos tenham o direito à educação assegurado. Os gestores e docentes poderão repensar sobre os métodos educacionais e o que mudar para melhorá-los", avalia.

Mônica Gardelli, superintendente do Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), afirma que os resultados da implantação da Base não devem ser vistos ainda este ano. "As redes de ensino e escolas têm até dois anos para revisarem seus currículos e projeto político-pedagógicos, de modo que ela só deve chegar às salas de aula em 2019 ou no início de 2020", explica. Mônica salienta que esse processo precisa ser acompanhado de outras iniciativas que fortaleçam as redes de ensino.

"É necessário que as metas estabelecidas pelo PNE (Plano Nacional de Educação) sejam cumpridas. Uma delas é a garantia das condições para que professores e gestores escolares tenham o apoio necessário para que os objetivos de aprendizagem sejam efetivamente trabalhados em sala de aula. Isso passa a assegurar infraestrutura e condições materiais às escolas. Dessa forma, levará tempo para que a Base possa impactar os indicadores educacionais, como o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)", afirma a especialista.

O presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito Federal (Aspa-DF), Luis Claudio Megiorin, concorda com a visão de que a BNCC reforça o direito à educação, tanto no ensino público quanto no privado. "As escolas poderão estruturar um currículo mais realista, trazendo mais transparência ao processo de ensino", analisa.

Expectativas

Outro possível avanço destacado por especialistas e membros da sociedade civil que se envolveram no processo de elaboração do documento é a clareza para os pais e responsáveis sobre o que esperar do desenvolvimento dos filhos a cada etapa do ensino. "Antes da Base, os pais tinham dificuldade em saber se os colégios cumpriam o currículo. Agora, eles terão mais clareza para avaliar se as escolas realmente são boas, pois contarão com um documento para cobrar os resultados e avanços", diz Megiorin, que também é membro do Conselho de Educação do Distrito Federal (CEDF) e preside a Comissão de Educação do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil no DF (OAB-DF).

Uma das tarefas das instituições de ensino será sinalizar aos responsáveis o papel da BNCC, conforme explica Cleuza Repulho, integrante do Movimento pela Base Nacional Comum. "As escolas devem explicar para as famílias de forma clara qual a importância da Base para que elas entendam qual é o valor dos colégios na formação das crianças", afirma. Ela acrescenta ainda outro desafio a ser enfrentado: "Existem redes de ensino que estão mais preparadas do que outras. Escolas rurais, bilíngues e quilombolas, por exemplo, vão precisar ter uma atenção técnica especial por terem menos estrutura e recursos".

Mônica Gardelli, superintendente do Cenpec, também acredita que a implementação da Base será complexa e que uma avaliação sistemática dos entraves desse processo em cada região precisará ocorrer. "Por meio da BNCC, será mais fácil estabelecer os direitos de aprendizagem de cada estudante, porém é preciso se preocupar, principalmente, com aqueles alunos que, por algum motivo, não conseguem aprender com os métodos de ensino usados em sala de aula", observa Mônica, que é doutora na área de currículo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O sucesso na implementação dependerá, em grande parte, dos professores, que precisarão de formação adequada. "Existem componentes curriculares específicos, por exemplo, nos quais é preciso que o docente se especialize para estar preparado para ensinar. É necessário garantir condições, materiais de trabalho, além da valorização e remuneração adequada aos educadores", alerta a especialista.

Preocupação em casa  

Mãe de Marcos Vinícius, 16 anos, e Maria Clara, 14, a pedagoga Alba Corrêa, 48, acompanha de perto a educação dos filhos e as discussões acerca da BNCC. Na opinião dela, a Base tem pontos positivos e negativos. "É um documento que busca melhorar o ensino no Brasil e, se bem estudado e implementado, pode contribuir muito com o sistema educacional", afirma. "Porém, cada região tem uma realidade diferente. Eu tenho parentes que moram em outros estados e, muitas vezes, as escolas não têm estrutura nem professores", conta a moradora de Taguatinga Norte.

 Para Alba, é necessário haver mais políticas públicas voltadas para a educação. "Não acredito que os docentes estejam preparados para a implementação da Base, com a volta do ensino religioso, por exemplo. Cada aluno tem sua crença. Como os educadores vão lidar com essa questão? É preciso ter um olhar diferenciado para que todos caminhem juntos em busca de uma educação melhor", diz.   

Cara a cara

Diversas falhas

Acredito que será muito difícil implementar a BNCC nos próximos anos, pois está repletas de falhas. Há uma certa insistência no tradicionalismo pedagógico, no qual os professores são meros reprodutores de conteúdos, quando o ideal é que os docentes construam o conhecimento com os alunos. A Base restringe o currículo do ensino fundamental, é antiquada e ultraconservadora, excluindo, por exemplo, as questões de gênero e sexualidade. O documento não se preocupa com as escolas rurais, bilíngues ou quilombolas e passa a ser um mero instrumento de controle do trabalho dos educadores. Mas os bons profissionais vão superar a Base, incluindo, respeitando e promovendo os valores previstos na Constituição Federal.

Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e doutor em educação e ciência política

Referência

A implementação da BNCC não vai tirar a autonomia dos professores em sala de aula. A Base é uma referência para que cada escola - estadual, municipal, pública ou privada - forme seu próprio currículo de acordo com as características das redes de ensino locais. Ela explica o que ensinar aos alunos, e os colégios, com os docentes, vão trabalhar em como transmitir esses conhecimentos aos estudantes. Por isso, é de extrema importância que os educadores estejam bem informados e instruídos sobre o documento e que recebam uma formação continuada para ajudar, principalmente, aqueles alunos que tenham mais dificuldade na aprendizagem.  

Stella Maris, professora do Departamento de Métodos e Técnicas da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em linguística e educação

Para saber mais

Como funciona?

 A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) prevê os conteúdos mínimos que todos os alunos brasileiros de escolas públicas ou privadas precisam aprender na educação básica, ou seja, da educação infantil ao ensino médio. Porém, a parte desta última etapa ainda não foi homologada por conta da reforma do ensino médio aprovada no ano passado. Segundo o Ministério da Educação (MEC), a previsão é de que esse trecho do documento seja enviado ao Conselho Nacional de Educação (CNE) ainda neste semestre. Seguindo orientações do documento, cada escola deverá elaborar o próprio currículo. A formação inicial e continuada dos professores também será peça-chave para a implementação da Base. Outra mudança será na elaboração de livros didáticos de acordo com a BNCC. As avaliações nacionais, como a Prova Brasil/Saeb e o Enem, também serão alinhados de acordo com o documento.

Ponto a ponto

Confira as principais orientações da BNCC para cada etapa do ensino

Educação infantil

» Dividida em dois eixos:

interações e brincadeira

» Direitos de aprendizagem e desenvolvimento:

conviver, brincar, participar, explorar, expressar, conhecer-se

» Campos de experiências:

o eu, o outro e o nós; corpo, gestos e movimentos; traços, sons, cores e formas; escuta, fala, pensamento e imaginação; espaços, tempos, quantidades, relações e transformações

» Faixas etárias:

bebês (de 0 a 1 ano e 6 meses); crianças bem pequenas (de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses); crianças pequenas (de 4 anos a 5 anos e 11 meses)

Ensino fundamental

» Áreas de conhecimento:

linguagens (língua portuguesa, artes, educação física e língua inglesa), matemática, ciências da natureza, ciências humanas (geografia e história) e ensino religioso

» Língua inglesa:

será ofertada nos anos finais

» Ensino religioso:

será estabelecido como componente curricular obrigatório nas escolas públicas, mas com matrículas facultativas

Fonte: Ministério da Educação (MEC)

Categoria pai: Seção - Blog

Shakespeare, Balcony e Iguanas

 

Estou num resort em Guarajuba, próximo a  Salvador. É um lugar paradisíaco, praia, piscinas, parque com muitos pássaros, uma espécie de SPA às avessas, tudo isso e muita comida, buffet permanentemente montado. Mas não quero falar de comidas, quero falar de palavras. Palavras têm uma história objetiva, traçada pela Etimologia e uma história subjetiva  na vida da gente.Frequentemente associo  alguma palavra à primeira vez que a ouvi ou a vi em um texto.  Funciona tanto  para palavras em Português quanto  para aquelas em um lingua estrangeira., nesse caso ainda com mais  precisão  na  recuperação do contexto.

Mas voltando ao resort, estou  ocupando um chalé.  A parede externa oposta à entrada é uma porta corrediça de vidro,  que  abre para uma varanda, às margens de um riacho.  Na porta um aviso em inglês: “Leaving the room, please make sure the balcony door is closed". . Estranhei um pouco a tradução. O espaço me parece uma ‘veranda’e não um ‘balcony’, por ser térreo. Mas talvez ‘balcony’seja mesmo a palavra adequada. Estou sem acesso à internet e a dicionários. Tomei conhecimento com esta palavra,  lendo Romeu e Julieta de Shakespeare, quando ainda estava na faculdade de Letras.  Romeu declama juras de amor à Julieta que o espia, semioculta  no ‘balcony’.

Aqui nos trópicos, cercada de coqueiros, não tenho a companhia de nenhum Romeu, mas tenho uma companhia  até ontem desconhecida para mim. Ao abrir as cortinas da porta de vidro, eis que enxerguei, quase às margens do riacho, um lagartão, esticado ao sol. À primeira vista, tive dúvida se era de verdade ou  uma decoração porque estava imóvel e assim permaneceu um longo tempo.  Sua pele é manchada como a de uma cobra. Seu corpo, que parecia cascudo, media cerca de 70 cm, seguido de uma cauda ainda maior.  A camareira do hotel me disse que há muitos deles neste parque, mas que eu não os temesse porque eles são vegetarianos.  Disse-me que são “inguanas”. Já ouvi falar de iguanas na Flórida e não sabia que eram herbívoras.  Minha filha, que veio testemunhar a insólita visita no meu chalé, concordou que o bicho parece pré-histórico, ou talvez fosse o dragão de Komodo. Até postou uma foto no Facebook.
Hoje a iguana voltou, mas não voltou sozinha. Veio um casal. Ficaram um pouco no balcony e depois se esparramaram na grama, embaixo de um coqueiro. Talvez queiram um pouco de sombra, porque o sol está muito forte, até para iguanas.
Palavras têm história.Iguanas já não serão para mim apenas uma referência a um réptil  que tem o bom gosto (!?) e os recursos para viver na Flórida, assim como muitos milionários  sul-americanos, que lavam  na Flórida o dinheiro de origem suja.

Guarajuba, BA, 08 de Janeiro de 2012

 

 Do livro "Uma palavra depois da outra " . 

Categoria pai: Seção - Blog

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.

José Saramago

Categoria pai: Seção - Blog

Pesquisar

A Odisseia Homero

Em 14 de Janeiro de 2018, chegamos a 317 downloads deste livro. 
:: Baixar PDF
:: Baixar o e-book para ler em seu Macintosh ou iPad

Uma palavra depois da outra


Crônicas para divulgação científica

Em 14 de Janeiro de 2018, chegamos a 5426 downloads deste livro.

:: Baixar o e-book para ler em seu Macintosh ou iPad
:: Baixar PDF


 

Novos Livros

Perfil

Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

Leia Mais

Publicações

Do Campo para a cidade

Acesse: