Oya Baydar fala do sequestro da língua materna das minorias de seu país --tema de A Palavra Perdida-- e da situação conflitante da mulher na sociedade.

Folha - Como vê a questão da censura na Turquia de hoje?

Oya Baydar - Nos anos 1970 e mais ainda nos anos 80, a censura e a opressão contra a esquerda foi dura e brutal. Mas, depois que a Turquia se tornou candidata a entrar na União Europeia e a influência dos militares diminuiu --depois de 2000--, a situação melhorou sensivelmente para a esquerda e os democratas. A queda do comunismo também teve um papel importante nesse processo.

Mas não posso dizer o mesmo em relação à questão curda. Nesse caso permanecem a opressão e a censura, ainda que tenham diminuído. A questão armênia é ainda um tabu nacional.

Como avalia a situação da mulher na sociedade atual de seu país?

É difícil de responder, porque a sociedade turca não é única, existem fortes contradições e diferenças entre as classes sociais, as formas de produção, as regiões geográficas e culturais, o oeste e o leste etc. Nos meios intelectuais burgueses e pequeno-burgueses, na sociedade urbana, o papel da mulher não é de modo nenhum inferior a de uma mulher europeia de mesma origem, talvez até superior. Mas nas regiões rurais --sobretudo no leste, onde as estruturas feudais e as formas tributárias persistem--, a situação da mulher é às vezes miserável. Mas é preciso lembrar que, nos últimos anos, o movimento feminista aqui se tornou eficaz --mesmo entre as mulheres curdas da Anatólia do leste.

A questão linguística é central em seu livro. Come ela pode explicar a diversidade e os conflitos da Turquia?

A questão da língua é central no romance, mas não apenas no sentido linguístico. A própria Bíblia começa dizendo No começo era o verbo.... O título tem um sentido metafórico que faz alusão, em primeiro lugar, à existência humana, que não pode ser separada da língua. É uma alusão às nossas crenças, a nossos ideais, a nossas esperanças de um mundo melhor. Nesse sentido, a palavra é meio de compreender o outro: é a palavra que une os homens.

Em segundo lugar, o livro faz alusão à língua curda, proibida e ignorada durante anos. Ainda que nos últimos dois anos ela tenha se tornado oficialmente conhecida, foi sempre banida do sistema escolar. Estou convencida de que a opressão de um povo começa com a opressão da língua.

Então ainda é duro ser curdo na Turquia?

Sim, é sempre difícil se você luta pela identidade étnica e nacional. Há pelo menos cem anos, as políticas de opressão e assimilação do nacionalismo turco não vêm sendo bem-sucedidas. Mesmo hoje, os militares não conhecem nenhum outro meio de resolver os problemas.

A ideia de revolução, de que a sra. trata com nostalgia em seu livro, não existe mais para as atuais gerações?

Sim e não. A ideia e a esperança de revolução de minha geração não existe mais. Mas, sob o lema um outro mundo, uma outra vida são possíveis, as novas gerações e os novos movimentos sociais vêm entrando em cena. São as mulheres, os curdos, as novas classes sociais, os muçulmanos, os ecologistas etc.

Eles se dão conta de que há outras contradições além das de classe --conflitos e contradições étnicas, culturais e religiosas-- e que é preciso tratá-las em conjunto.

Sob esse aspecto, não sou pessimista quanto ao futuro.

Como a sra. escreveu, estamos repetindo por gerações os mesmos erros e problemáticas, sem sermos capazes de resolvê-los ou de dar-lhes uma resposta. De quais erros a sra. fala?

Não me refiro apenas à questão curda. O tema principal do romance é a violência e o terror em todas as suas formas --desde a dissecação de um sorriso no trabalho até a violência contra um homem ou um povo.

A oposição entre civilização e barbárie é noção de ocidental, diria até eurocêntrica. Penso que o homem civilizado --as sociedades e países imperialistas-- pode ser muito mais bárbaro do que os povos que chama de bárbaros. Trata-se, antes, da oposição entre o que há de cruel e de sublime na natureza humana.

Eu para o Ocidente, você para o Oriente. Nossos caminhos estão lentamente se afastando. A separação física entre Ömer e sua mulher, Elif, representa a divisão cultural entre Ocidente e Oriente? Em que medida ela é verdadeira?

Sim, representa um face a face entre Oriente e Ocidente. Mas mesmo na Turquia existe essa divisão. Leste quer dizer o outro, o estrangeiro.

Eu sou o assim chamado mestre da palavra, Ömer Eren, supostamente abençoado com a palavra... Na realidade, não sou absolutamente nada. A quem a sra. se refere? A Pamuk? Ele é uma influência em sua escrita?

De modo nenhum. Jamais pensei em Pamuk ao criar esse personagem. Em primeiro lugar, porque ele, felizmente, ainda não perdeu a palavra. Em segundo, porque não acho que seja o mestre da palavra. Gosto muito dele, escreveu romances muito bons que foram classificados como pós-modernos. Mas, como não se trata de meu gênero, não posso falar de influência.

A ascensão do AK é um problema?

Em absoluto. Mas, para os meios laicos e as elites republicanas tradicionais, o AK é um verdadeiro problema. Na realidade, trata-se de uma parte da centro-direita que se apoia na nova burguesia da região da Anatólia --religiosa e conservadora, de resto, como a maior parte do povo turco.

Pratica políticas neoliberais e tenta se afastar da tradição ultranacionalista e militarista do Estado turco. É verdade que o AK é orientado em direção ao mundo muçulmano, mas sem querer se distanciar do mundo ocidental.

Qual será o futuro da Turquia?

É difícil prever. Existem muitos parâmetros, e a geopolítica mundial atravessa uma fase muito ambígua. Acredito que o mundo, no futuro, será multipolar. Não sei dizer onde a Turquia irá se situar no novo sistema, mas posso dizer que será melhor do que é hoje.

Categoria pai: Seção - Entrevistas

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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