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BRONCKART, Jean Paul. Interacionismo Sócio-discursivo: uma entrevista com Jean Paul

Bronckart. Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL. Vol. 4, n. 6, março de 2006.

Tradução de Cassiano Ricardo Haag e Gabriel de Ávila Othero. ISSN 1678-8931

[www.revel.inf.br].

INTERACIONISMO SÓCIO-DISCURSIVO: UMA ENTREVISTA

COM JEAN PAUL BRONCKART

Jean Paul Bronckart

Universidade de Genebra

ReVEL – Quais foram as áreas da Lingüística que influenciaram

mais as bases teóricas do Interacionismo Sócio-discursivo (ISD)?

Bronckart Antes de responder a essa questão, tomarei a liberdade de,

primeiramente, ampliá-la, não me limitando apenas às influências da

lingüística, mas evocando também as bases, pelo menos as mais importantes,

de outras ciências humanassociais, em particular, da psicologia e da

sociologia. Em seguida, distinguirei, sem dúvida um pouco artificialmente, as

influências de ordem técnico-lingüísticas das de ordem mais nitidamente

epistemológicas e até filosóficas.

1.1. As influências “técnicas”

Nesse domínio, por mais surpreendente que possa parecer, o primeiro lingüista

que mencionaremos será Bloomfield (1933), pois a metodologia que ele

construiu (cf. a análise distribucional e a análise em constituintes imediatos)

forneceu instrumentos que foram, e continuam sendo, indispensáveis para toda

operacionalização de uma descrição e de uma classificação das empirias

lingüísticas. Não nos inscrevemos, portanto, no movimento, particularmente

vivo na França e em certos países latinos, que, após o desenvolvimento das

abordagens enunciativas eou pragmáticas, literalmente “diabolizaram” o

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estruturalismo e seus aportes. Em nossos estudos, que se voltam para a

organização e o funcionamento dos textosdiscursos, a primeira etapa consiste

sempre em uma identificação das categorias de unidades e de estruturas que

lhes são atestáveis, mesmo que depois prossigamos por outros procedimentos

de análise e de interpretação, que podem remeter à origem da identidade ou do

estatuto dos “objetos” gerados nessa análise estrutural inicial. De fato, a maioria

dos lingüistas contemporâneos procede como nós e exploram efetivamente os

métodos estruturais; em vez de mascarar essa situação, nós preferimos

explicitá-la e reconhecer nossa dívida ao olhar dessa corrente, da mesma forma

que, por outro lado, reconhecemos nossa dívida ao olhar de alguns aportes

teóricos e metodológicos de behaviorismo na psicologia. Dito isso, se

exploramos sem estado de alma, as técnicas provindas do behaviorismo

lingüístico, não aderimos, entretanto, à epistemologia que essa abordagem

subentende, como veremos no item 1.2.

Sem dúvida, a mais decisiva influência para o estabelecimento da caminhada

própria do ISD foi, no entanto, a obra de Culioli (1990, 2002, 2005), com sujo

contato se efetuou nossa verdadeira formação lingüística, e da qual três aportes

serão sublinhados. O primeiro consiste em um substancial alargamento da

metodologia bloomfieldiana: tentar, a partir dos enunciados “dados”, prever o

previsível como se fosse “o menos previsível”, de modo a ultrapassar o caráter

“local” dessa caminhada fundadora. Isso implica constituir corpus de

enunciados atestados assim como enunciados construídos, e, em seguida,

proceder a manipulações que visam a evidenciar o que há de comum e de

diferente nas famílias de enunciados, reenviando a um mesmo universo de

referência. O segundo aporte, mais propriamente teórico, tratou da reinterpretação

do estatuto das empirias lingüísticas, em termos de “marcadores”

e de “operações”. Qualquer que seja sua delimitação e seu estatuto do ponto de

vista estrutural (signo, sintagma, proposição), cada entidade lingüística

constitui (também) um marcador, isto é, um veículo ou um revelador material

de uma ou mais operações constitutivas do trabalho enunciativo subentendido

em toda produção verbal. Esse segundo nível de interpretação não anula o

primeiro, mas sim, evidencia que, do ponto de vista praxeológico, a identidade

de uma entidade verbal somente pode ser estabilizada sobre a base das

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operações que a subentendem (em outros termos, entidades lingüísticas

diversas constituem uma mesma marca, desde que materializem uma mesma

operação). O terceiro aporte é o da rede de conceitos introduzidos pelo autor

para designar e descrever as diferentes operações de linguagem*: as noções, as

relações primitivas e o esquema da lexis para reformular o estatuto da relação

predicativa e de seus constituintes de base; a extração, as indicações e os

diversos tipos de determinações para codificar os processos que se aplicam

secundariamente aos esquemas da lexis. Certamente, pode-se lamentar que essa

abordagem permaneça centrada nos enunciados, e não tenha, verdadeiramente,

integrado a dimensão textualdiscursiva, mas alguns alunos de Culioli

procederam a essa ampliação, Simonin-Grumbach (1975) tendo notadamente

introduzido a noção de tipos de discurso que nós retomamos tal qual em nossos

próprios trabalhos.

A terceira influência é, então, como se pode presumir, a das ciências dos textosdiscursos.

Os escritos de Volochinov (19291977) constituíram para nós uma

fonte de inspiração maior, na medida em que forneceram as bases de nossa

abordagem do estatuto da unidade-texto, de um lado, das modalidades de

interação entre as atividades de linguagem e os outros tipos de atividades

humanas, de outro. Além desses, seguramente, trabalhos próprios de Bakhtin

(cf. 1978, 1984), que, nos parece um pouco atrás em relação ao acento que

punha Volochinov sobre as dimensões praxeológicas e sócio-históricas da

atividade discursiva, propôs uma análise do estatuto dos gêneros textuais, de

um lado, dos mecanismos interativos que os organizam, de outro, que é

unanimemente aceito e por demais conhecido para que o comentemos

novamente. Nesse domínio, para descrever alguns fenômenos lingüísticos

locais, bem como para elaborar nosso modelo da arquitetura textual, tomamos

emprestados múltiplos trabalhos de autores com cujas orientações teóricas

gerais não necessariamente compartilhamos: estudos detalhados dos

mecanismos de conexão, de coesão (cf., por exemplo, Charolles, 1994) ou de

estruturação temporal (cf. Benveniste, 1966; Weinrich, 1973); elaboração de

* Nas expressões operations langagières, activité langagière, action langagière e pratiques langagières, o

termo langagière será traduzido pela expressão “de linguagem”, conforme já consagrada com a tradução

de Anna Rachel Machado. A expressão socio-langagier foi traduzida por “sócio-discursivo”. Em outros

casos, optamos pelo termo “linguageiro”, já bastante utilizado também em traduções do francês. Em caso

de exceções serão feitas notas de rodapé. (N.T.).

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modelos gerais da organização textual, como o de Roulet et al. (1985) e,

sobretudo, o modelo construído progressivamente por Adam (1990, 1992,

1999), autor com o qual estamos em permanente debate crítico e construtivo;

trabalhos, enfim, da corrente da narratologia, e de Genette (1972) em particular,

que evidenciam a complexidade e a heterogeneidade dos mecanismos

enunciativos-discursivos, com tal fineza de análise que apenas parcialmente

podemos explorar em nosso trabalho.

1.2. As influências “epistemológicas”

Como se verá na questão 2, o propósito do ISD não é, em si, propor um novo

modelo de análise do discurso. Certamente, efetuamos esse tipo de trabalho (e

isso durante várias décadas), mas apenas enquanto possa nos fornecer o auxílio

necessário para abordar nosso questionamento central, que é o do papel que a

linguagem desempenha, e, mais precisamente, as práticas de linguagem, na

constituição e no desenvolvimento das capacidades epistêmicas (ordem dos

saberes) e praxeológicas (ordem do agir) dos seres humanos.

Sob esse ângulo, nossa influência primeira é de Vygotski (19341997; 1999), que

elaborou uma psicologia de desenvolvimento à qual nós aderimos desde o fim

dos anos 1960. Tratar do desenvolvimento humano implica necessariamente

(em nosso ponto de vista) fazer opções epistemológicas claras, e, como veremos

a seguir em 2, Vygotski sobre esse ponto adotou um quadro essencialmente

inspirado nas proposições de Spinoza e de Marx-Engels. Para esses últimos

autores, o objeto primeiro de toda ciência humana não é mais, como era na

filosofia clássica, a relação que se instala entre o sujeito que pensa e o mundo,

mas sim, a práxis coletiva, ou ainda, “a atividade humana, enquanto atividade

objetiva, pois é na prática que o homem tem de fazer a prova da verdade, isto

é, da realidade e da potência de seu pensamento, a prova que é deste mundo

(Marx, 1951: 23-4). Nessa perspectiva, as capacidades de pensamento ativo do

ser humano não podem derivar diretamente das propriedades físicas de seus

corpos ou de seus comportamentos objetivos; elas somente podem proceder,

como o mostra Engels em La dialectique de la nature (19251971) que a

reintegração, no homem, das propriedades da vida social objetiva, em seus

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aspectos de criação de instrumentos, de cooperação no trabalho e de linguagem.

O objetivo fundamental de Vygotski era propor uma análise da ontogênese

humana que fosse compatível com essas posições, o que o levou a elaborar um

esquema desenvolvimental que se pode resumir em cinco pontos: 1) o jovem

humano é dotado de um equipamento biocomportamental e psíquico inicial,

que, enquanto procede da evolução contínua das espécies, o dote de

potencialidades novas; 2) desde o nascimento, o jovem humano é mergulhado

em um mundo de pré-construtos sócio-históricos: formas de atividade,

coletivas, obras e fatos culturais, produções semióticas que emergem de uma

língua natural dada, etc.; 3) desde o nascimento, ainda, o ambiente humano

empreende caminhadas deliberadas de formação, que visam integrar o jovem

humano nessas redes de pré-construtos, ou que guiam sua apropriação destes

últimos; 4) no quadro desse processo de apropriação, a criança interioriza

propriedades da atividade coletiva assim como signos e estruturas de linguagem

que a mediatizam; 5) essa interiorização das estruturas e significações sociais

transforma radicalmente o psiquismo herdado e dá origem às capacidades do

pensamento consciente. Nessa perspectiva, é, então, a integração de elementos

semióticos e sociais que é constitutiva do pensamento propriamente humano.

Vygotski, entretanto, não pôde fornecer uma verdadeira validação

argumentativa ou empírica de seu esquema desenvolvimental, e é,

notadamente, para fazer face a esse problema que solicitamos a contribuição da

obra de Saussure. Na cronologia de nosso percurso, esse autor é, portanto,

nossa segunda referência epistemológica maior, mas ele tende, hoje, a tornar-se

nossa referência principal, em razão da importância decisiva das perspectivas

abertas por seus escritos (1916, 2002). Num primeiro momento, então,

exploramos a teoria saussureana do signo para validar as teses vygotskianas, ou

para mostrar em que a apropriação e a interiorização dessas entidades

semióticas podem “causar” a emergência do pensamento consciente humano.

Uma vez que os signos são, a princípio, imotivados (independência das

propriedades dos significantes em relação às de seu referente), sua

interiorização, é conferida ao funcionamento psíquico uma verdadeira

autonomia em relação aos parâmetros do ambiente. Esse caráter imotivado é,

no entanto, menos importante que o do arbitrário radical, noção que exprime o

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fato que, na medida em que eles se originam no uso social de uma comunidade

particular (e então de uma língua), os signos submetem as representações

individuais a uma reorganização cujo caráter é radicalmente não natural. O

significante de um signo (o termo fruta por exemplo) impõe, a uma só vez, uma

delimitação e uma federação das diversas imagens mentais que um humano é

suscetível de construir em sua interação solitária com esse tipo de objeto; e o

significado do signo é constituído pelo conjunto das imagens mentais que se

encontram assim submetidas pelo significante. As línguas naturais se

diferenciam não apenas por seus significantes aparentes, mas sobretudo pela

extensão e pela estrutura interna das imagens constitutivas dos significados,

como atestam os problemas de tradução, é, portanto, no quadro dessas formas

sócio-linguageiras particulares e arbitrárias que se organizam as representações

humanas. Nessa perspectiva, os signos são entidades representativas

desdobradas; apresentam-se como envelopes em que agrupam representações

individuais, ou ainda, como representações (sociais) de representações

(individuais). E quando a criança interioriza os signos, ela os interioriza com

essa propriedade meta-representativa, propriedade que torna possível, ela

mesma, esse desdobramento do funcionamento psíquico que é a condição sine

qua non da emergência de seu caráter auto-reflexivo. Essa emergência somente

é possível, todavia, na medida em que os signos apresentam uma terceira

propriedade: eles são discretos, isto é, seus significantes são “recortados” em

unidades descontínuas, e a interiorização de tais significantes acarreta

necessariamente uma interiorização correlativa de seu significado, significado,

portanto, ele mesmo, delimitado e com a capacidade de absorver e de

reorganizar as imagens mentais de caráter idiossincrático:

Psicologicamente, abstração feita de sua expressão pelas

palavras, nosso pensamento é somente uma massa amorfa e

indistinta. [...] O papel característico da língua face ao

pensamento não é criar um meio fônico material para a

expressão das idéias, mas servir de intermediário entre o

pensamento e o som, em condições tais que sua união acarreta

necessariamente delimitações recíprocas de unidades. O

pensamento, caótico por natureza, é forçado a se precisar

decompondo-se. Não há, então, nem materialização dos

pensamentos, nem espiritualização dos sons, mas trata-se de

fato de alguma forma misteriosa, que o “pensamento-som”

implica divisões e que a língua elabora suas unidades

constituindo-se entre duas massas amorfas. (Saussure, 1916:

155-156).

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Num segundo momento, graças, notadamente, aos trabalhos de alguns de

nossos colaboradores (cf. Bulea, 2005), tomamos consciência do caráter

propriamente revolucionário1 das proposições saussureanas, das quais ao

menos três alimentam os desenvolvimentos atuais (e futuros) do ISD: a

concepção do signo como entidade fundamental processual, que jamais é

dotado de um significado imutável, mas que acolhe imagens mentais

temporárias e instáveis, porque sempre dependentes do uso; a concepção do

sistema da língua, não como entidade fechada, mas como estando em perpétua

interação com os sistemas sociais, psicológicos e discursivos; o acento, enfim,

sobre os mecanismos de mudança, e sobre a dinâmica temporalizada que

anima o conjunto dos sistemas que subentendem os fatos linguageiros.

Além desses autores, poderíamos citar vários outros, dos quais pegamos

emprestadas proposições ou análises teóricas que nos parecem fundamentais.

Para nos limitar aos principais (que ainda não foram mencionados), citaremos:

no campo propriamente filosófico, as abordagens de Wittgenstein (1961); no

campo filo-sociológico, as de Habermas (1987), de Ricoeur (1986) e de Schütz

(1998); no campo psicológico, as de Leontiev (1967), de Piaget (1970) e de

Wallon (1938), no campo lingüístico, enfim, as de Humboldt (18351974) e de

Coseriu (2001).

ReVEL – Alguns, ao se referir ao Interacionismo Sócio-discursivo, o

tratam por uma “teoria”. Anna Rachel Machado (da Pontifícia

Universidade Católica de São Paulo – PUCSP) propõe encarar o ISD

como um novo “paradigma científico” da Lingüística. Para o senhor,

o que é o ISD?

Bronckart – Honestamente, eu realmente não estou preocupado com a

questão de saber se o ISD constitui uma “teoria”, um “paradigma científico” ou

o que quer que seja do gênero. Decidir sobre essa questão implicaria além do

1 A identificação desse caráter revolucionário exige, entretanto, que se tome distâncias com a recepção

estruturalista do Curso de lingüística geral (1916) e que se proceda a uma análise detalhada das notas de

Saussure, principalmente das publicadas nos Escritos de lingüística geral (2002).

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mais que se dispusesse de uma concepção relativamente clara do que são

teoria eou paradigmas, o que me parece longe de ser evidente. Em

conseqüência, me limitarei em tentar explicar o que é e o que quer ser a

“caminhada” do ISD.

2.1. Uma variante e um desenvolvimento do interacionismo social

O ISD se inscreve claramente no movimento do interacionismo social, do qual

constitui a uma só vez uma “variante” e um prolongamento.

O interacionismo social é uma vasta corrente de pensamento das ciências

humano-sociais que se constituiu no primeiro quarto do século XX,

notadamente através das obras de Bühler (1927), Claparède (1905), Dewey

(1910), Durkheim (1922), Mead (1934), Wallon, e seguramente Vygotski. Em

sua versão original, essa corrente sustentava que a problemática da construção

do pensamento consciente humano deveria ser tratado paralelamente à

construção do mundo dos fatos sociais e das obras culturais, e considerava que

os processos de socialização e os processos de individuação (isto é, de formação

das pessoas individuais) constituíam duas vertentes indissociáveis do mesmo

desenvolvimento humano. Sustentava também, de um lado, que o

questionamento das ciências humanas em vias de constituição devia se apoiar

sobre o impressionante corpus de filosofia do espírito (de Aristóteles a Marx),

de outro lado, que os problemas de intervenção prática, e notadamente as

questões que põem a educação e a formação constituíam objetos centrais para

essas mesmas ciências humanas. Ele contestava, enfim, radicalmente, o corte

das ciências em múltiplas disciplinas e sub-disciplinas, descolando da adesão à

epistemologia positivista de Comte (18301907). Esse último procedeu, como

se sabe, a uma classificação das diversas ciências fundado sobre os graus de

generalidade e de complexidade dos objetos aos quais se endereçam, assinou

aos estudiosos um trabalho de descrição dos fenômenos e de identificação das

leis ou da ordem que as organizam e interditou, enfim, a esses mesmos

estudiosos toda forma de transgressão das fronteiras que separavam as

disciplinas científicas: cada objeto deve se explicar por sua economia ou sua

sistemática própria, sem levar em consideração aquisições de outras disciplinas.

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O interacionismo social rejeita essa epistemologia, pois considera que suas

problemáticas centrais são, de um lado, as das relações de interdependência

que se instauram e se desenvolvem entre os aspectos fisiológicos, cognitivos,

sociais, culturais, lingüísticos, etc., do funcionamento humano, de outro lado, as

dos processos evolutivos e históricos pelos quais essas diferentes dimensões

foram engendradas e co-construídas.

Essa corrente histórica foi, entretanto, diminuída e combatida, em razão da

adesão majoritária ao positivismo que se manifestou no conjunto das ciências

humanas a partir de 1930, e em razão também do acento recaído sobre as

questões de intervenção prática e educação. Ele ressurgiu, no entanto, a partir

dos anos 1970, graças à descoberta da obra de Vygotski, assim como dos

trabalhos de Bruner (1993) e de outros.

O ISD aceita todos os princípios fundadores do interacionismo social, como a

contestação do corte atual das ciências humanassociais: nesse sentido, ele não

pode se constituir uma corrente propriamente “lingüística”, mais que uma

corrente “psicológica” ou “sociológica”; ele se quer uma corrente da ciência do

humano.

Mas, de uma maneira que é apenas aparentemente contraditória com o que

precede, o ISD considera que a problemática da linguagem é absolutamente

central ou decisiva para essa mesma ciência do humano. No prolongamento da

tese de fato compartilhada por Saussure e Vygotski, segundo a qual os signos

lingüísticos** estão nos fundamentos da constituição do pensamento consciente

humano, visa a demonstrar, mais geralmente, que as práticas de linguagem

situadas (quer dizer, os textos-discursos) são os instrumentos maiores do

desenvolvimento humano, não somente sob o ângulo dos conhecimentos e dos

saberes, mas, sobretudo, sob o das capacidades de agir e da identidade das

pessoas. A posição do ISD pode, então, por esse ponto de vista, ser qualificado

de logocêntrico, mas trata-se de um logocentrismo moderado, que recusa todo

determinismo “definitivo” do sócio-discursivo: sustentar que as práticas de

linguagem estão nos fundamentos (isto é, na origem) de todo funcionamento

** Langagiers”, N.T.

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especificamente humano, não pode levar a contestar essa realidade indiscutível

que constitui a emergência de capacidades cognitivas gerais, tendendo a abstrair

diferenças sociais, culturais ou linguageiras, tais como Piaget notadamente as

descreveu. Aqui, o importante é considerar que essa construção de capacidades

cognitivas tendencialmente universais resulta de um processo secundário,

aplicando-se progressivamente a capacidades de pensamento inicialmente

marcadas pelo sócio-cultural e o linguageiro.

2.2. Uma ancoragem em uma filosofia materialista, monista e dialética

O ISD se articula a um conjunto de princípios filosóficos, fundados

primeiramente sobre a obra de Spinoza, depois sobre sua releitura por Marx-

Engels, enfim, sobre a filosofia implícita em Saussure.

De Spinoza (16771954), o ISD retém os princípios do materialismo monista e

paralelista. O materialismo vem para afirmar que o universo é apenas a matéria

em perpétua atividade, e que todos os “objetos” que ele inclui, compreendem

nele os processos de pensamento atestáveis na espécie humana, são realidades

propriamente materiais. O princípio do monismo vem para afirmar que, se

alguns desses objetos nos aparecem, entretanto, enquanto físicos, (inscritos no

espaço), outros nos aparecem enquanto psíquicos (não estando aparentemente

inscritos, e, portanto, não diretamente “observáveis”), trata-se apenas aí de uma

diferença fenomenal, e não de uma diferença de essência. Em essência, tudo é,

definitivamente, matéria, e é somente em razão da mediocridade de nossas

capacidades de entendimento (ou de nossas capacidades cognitivas) que

apreendemos essa realidade única sob a forma de dois tipos de fenômenos

disjuntos. O princípio do paralelismo vem para considerar que, no decorrer da

“caminhada do universo”, a matéria ativa fez nascer “objetos” cada vez mais

complexos, e notadamente organismos vivos, num processo geral segundo o

qual cada objeto produz os mecanismos dinâmicos de sua organização interna.

Isso implica que, a cada etapa da evolução, as propriedades dessa organização

interna dos objetos “correspondem” às de suas interações comportamentais com

o meio externo; nos organismos vivos em geral, essa organização é gerada por

um psiquismo primário (sistema de traços internos não-autônomos, pouco

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operacionalizáveis e inacessíveis a eles mesmos), enquanto no homem, esse

psiquismo primário se encontra em harmonia com um (e reorganizado por um)

psiquismo secundário, isto é, por um pensamento consciente.

De Marx & Engels (18461968), o ISD retém que o desenvolvimento humano

deve ser apreendido em uma perspectiva dialética e histórica. O marxismo

propõe que os estados iniciais do psiquismo humano não podem ser, a

princípio, conscientes, mas que essa função superior é construída

historicamente: as capacidades biocomportamentais específicas dos organismos

humanos tornaram possível a elaboração de atividades coletivas, assim como

instrumentos a serviço de sua realização concreta (as ferramentas

manufaturadas) e instrumentos a serviço de sua gestão de conjunto (os signos

lingüísticos***), o que produziu um mundo econômico, social e semiótico que

constitui doravante uma parte específica do ambiente dos humanos; é, em

seguida, o reencontro com essas propriedades radicalmente novas do meio,

depois sua apropriação e sua interiorização pelo organismo, que

progressivamente transformou o psiquismo primário e deu lugar à emergência

do pensamento consciente em seu estado atual. Essa posição se acrescenta à

rejeição de toda concepção essencialista do humano e à necessidade de estudar

cientificamente as capacidades desse último em uma perspectiva genealógica ou

“genética”, no sentido de Piaget e de Vygotski: somente se pode compreender o

humano compreendendo sua construção ou futuro.

Combinando esses dois aportes, o ISD sustenta (isto é, sua tese, sem dúvida,

mais “profunda”) que a emergência das práticas de linguagem ou semióticas se

inscrevem na continuidade da evolução das espécies, constitui, ao mesmo

tempo, o elemento decisivo da “ruptura humana”: a prática dos signos e dos

textos que os organizam constituiriam uma forma de materialização dos

processos dinâmicos que, tendo o homem, permanecem inobserváveis ou

implícitos; com o homem, elabora-se uma nova rede de processos dinâmicos, de

origem radicalmente social, que, de um lado, se sobrepõe à rede dinâmica

herdada ou biológica, que, de outro lado, porque é material e, portanto,

acessível, permite ao homem pensar e gerar seu próprio futuro.

*** Langagiers”, N.T.

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Dos aspectos “revolucionários” de Saussure (2002), o ISD retém, além das três

teses evocadas acima em 1.2. (caráter processual dos signos; interações

constantes entre os sistemas da língua, dos discursos e do social-psicológico;

centração sobre a temporalidade da vida da linguagem), uma quarta, que é a da

dupla ancoragem da língua. Para Saussure, toda língua é, por um lado, ancorado

na comunidade verbal, e é nesse único nível que se pode apreender a totalidade

dos recursos, e ela é, por outro lado, ancorada em cada indivíduo, a título de

“repositório” parcial dessa realidade coletiva. Conseqüentemente, considera-se

que o discursivo**** está nos fundamentos do psiquismo. Essa tese implica,

então, que esse psiquismo é duplamente ancorado: de um lado, nos mundos das

obras e da cultura (cf. Dilthey, 18831992), de outro, em cada organismo

humano singular, o que conforta singularmente as teses do interacionismo

social inicial, e que demonstra que o “psicológico” não pode jamais ser retido no

nível único dos indivíduos, mas na interação desses últimos com o ambiente

social.

2.3. Os gêneros da textos e os tipos de discurso

À medida que visa a estudar os efeitos das práticas de linguagem sobre o

desenvolvimento humano, o ISD precisou forjar uma concepção da organização

dessas práticas, sob a forma de textos eou de discursos. É a razão pela qual se

elaborou, de um lado, um modelo das condições de produção de textos (cf.

entretanto 3, infra) e um modelo da arquitetura textual, elaborado como

indicado em 1.1. ao que se seguiu amplamente diversos trabalhos de lingüística

ou das ciências do texto.

No âmbito desta entrevista, não será possível descrever em detalhes esses dois

modelos, para os quais enviamos o leitor a nossa obra (em português) de 1999

(cf. nossas referências em 5). Vamos nos limitar a pôr o acento sobre uma das

originalidades de nossa concepção, que é a distinção de estatuto e de função

entre os “textos”, os “gêneros de textos” e os “tipos de discurso”.

**** Langagier”, N.T.

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Qualificamos de textos todas as produções de linguagem situadas, que são

construídas, de um lado, mobilizando os recursos (lexicais e sintáticos) de uma

língua natural dada, de outro, levando em conta modelos de organização textual

disponíveis no quadro dessa mesma língua. Esses textos podem ser definidos

como manifestações empíricaslingüísticas das atividades de linguagem dos

membros de um grupo. Sob esse ângulo, e de maneira paradoxal, se um texto

mobiliza unidades lingüísticas (mais eventualmente de outras unidades

semióticas), não constitui em si mesmo uma unidade lingüística; suas condições

de abertura, de fechamento (e provavelmente de planificação geral) não são da

competência do plano lingüístico, mas são inteiramente determinadas pela ação

que a gerou (cf., sobre esse ponto, Bakhtine, 1984); é a razão pela qual nós

qualificamos o texto como unidade comunicativa. Por outro lado, à medida que

as formações sócio-discursivas elaboraram, no decorrer da história, modelos de

organização textual diversos suscetíveis de realizar empiricamente uma mesma

ação de linguagem (cf. Foucault, 1969), não existe (ou existe apenas

excepcionalmente) correspondência biunívoca entre uma ação de linguagem e

uma espécie de texto.

Os textos são produzidos pela operacionalização de mecanismos estruturantes

heterogêneos e freqüentemente facultativos, que exploram recursos lingüísticos

por vezes em concorrência. E toda confecção de texto implica conseqüente e

necessariamente escolhas, relativas à seleção e à combinação dos mecanismos e

de suas modalidades lingüísticas de realização. Nessa perspectiva, os gêneros

de textos constituíam os produtos de configurações de escolhas entre as

possíveis, que são momentaneamente estabilizadas pelo uso, escolha que

emerge do trabalho que realiza as formações sócio-discursivas para que os

textos sejam adaptados às atividades que eles praticam, adaptados a um meio

comunicativo dado, eficazes em face a tal aposta social, etc. Em razão desse

estatuto, os gêneros mudam necessariamente com o tempo, ou com a história

das formações sócio-discursivas. Por outro lado, como toda obra humana, os

gêneros fazem o objeto de avaliações ao termo das quais se encontram afetados

de diversas indexações sociais: indexação referencial (que atividade geral o

texto é suscetível de comentar?); comunicacional (para que interação esse

comentário é pertinente?); cultural (qual é o “valor social agregado” à matriz de

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um gênero?); etc. Essa situação explica que não se possa por relação direta entre

espécies de agir linguageiro e gêneros de textos; ela explica também a

impossibilidade de classificação estável e definitiva dos gêneros, sublinhada

por inúmeros autores; impossibilidade de classificação que é apenas a

conseqüência da heterogeneidade e do caráter geralmente facultativo dos subsistemas

que contribuem à confecção da textualidade.

Em sua Introduction à larchitexte (1979), Genette havia claramente

evidenciado a necessidade de distinguir as tentativas de classificação dos textos

em gêneros, daquelas fundadas em seus modos de enunciação. Para ele, os

gêneros têm modalidades de estruturação diversas e heterogêneas e não podem,

portanto, ser arranjadas conforme um sistema hierárquico estável, enquanto

que os “modos” seriam atitudes de locução de caráter universal, traduzindo-se

por formas lingüísticas mais estáveis e, então, identificáveis. A distinção posta

por Benveniste entre “história” e “discurso”, a de Weinrich entre “mundo

comentado” e “mundo narrado” traçaram bem esses modos de enunciação; elas

descrevem atitudes de locução gerais, que se traduzem, no quadro de uma

língua natural dada, por configurações de unidades e processos lingüísticos

relativamente estáveis. Simonin-Grumbach (op. cit.) tentou formalizar as

operações que esses planos enunciativos subentendem, e identificar as

propriedades lingüísticas das formas que os realizam, formas que ela qualificava

de tipos de discurso. É essa abordagem que nos inspirou e que tentamos

prolongar, sobretudo, sob dois aspectos. Nós reanalisamos as operações que os

tipos de discurso subentendem, fazendo intervir duas decisões binárias. Para a

primeira, (disjunção-conjunção), as coordenadas que organizam o conteúdo

temático verbalizado estão explicitamente postas à distância das coordenadas

gerais da situação de produção do agente (ordem do NARRAR), ou elas não

estão (ordem do EXPOR). Para a segunda, as instâncias de agentividade

verbalizadas estão postas em relação com o agente produtor e sua situação de

ação de linguagem (implicação), ou elas não estão (autonomia). O cruzamento

do resultado dessas decisões produz, assim, quatro “atitudes de locução” que

chamamos de mundos discursivos: NARRAR implicado, NARRAR autônomo,

EXPOR implicado, EXPOR autônomo. Procedemos a análises distribucionais e

estatísticas das configurações de unidades e de processos da língua francesa que

15

exprimem esses mundos discursivos, o que permitiu identificar quatro tipos de

discurso, que chamamos de discurso interativo, discurso teórico, relato

interativo e narração. Ainda que pareça minoritária, essa escolha de utilizar a

expressão tipos de discurso em vez de “modo de enunciação” nos parece mais

que legítima. Além de sua acepção banal, designando toda operacionalização de

uma língua, a noção de “discurso” reenvia mais profundamente ao processo de

verbalização do agir linguageiro, ou de sua semiotização no quadro de uma

língua natural. Ora, esse processo se realiza manifestadamente segundo

modalidades diversas (possíveis de descrever em termos de operações), que são

expressas por formas lingüísticas relativamente estáveis, que exercem

influências maiores sobre a distribuição e as condições de emprego das

unidades; o que justifica que se fale de “tipos” de semiotização, ou de tipos de

discurso. Esses tipos constituem, em outros termos, formatos de

operacionalização das unidades de uma língua (vertente significante), que

traduzem alguns formatos que organizam as trocas linguageiras humanas, ou

trocas interindividuais de representações (vertente significado).

2.4. Práticas de linguagem e desenvolvimento

Os trabalhos que foram descritos, além do interesse intrínseco, constituem

também, como indicamos, uma espécie de pressuposto para a análise dos efeitos

que exercem as práticas de linguagem sobre o desenvolvimento humano, que

asseguramos, de um lado, sob o ângulo epistêmico, de outro, sob o ângulo

praxeológico.

O primeiro deve levar a pesquisas que visam a analisar os efeitos dessas práticas

sobre o desenvolvimento da organização dos conhecimentos. O único trabalho

pronto, hoje, foi realizado no domínio da estruturação temporal (Bronckart,

2005). fez aparecer um interessante paralelismo entre as etapas de matriz da

estruturação temporal dos tipos relato interativo e narração, e as etapas da

construção do “tempo social” estabelecidas notadamente por Piaget (1946).

Outros trabalhos estão em curso sobre o tema do papel da matriz dos tipos de

discurso sobre a emergência das diversas formas de raciocínio: os tipos de

discurso servem, de fato, como lugar de interface entre as representações

16

individuais (tendo sua sede nas obras humanas), e eles constituem os formatos

obrigados dessa colocação em interface. Quando (re-)produz um tipo de

discurso, um indivíduo deve proceder à planificação interna dos segmentos

concernidos, e aprende assim a operacionalizar esses processos

indiscutivelmente mentais e linguageiros que são os raciocínios: raciocínios

práticos implicados nas interações dialogais (cf. Rolet et al., op. cit.); raciocínios

causais-cronológicos implicados nos relatos interativos e nas narrações (cf.

Ricoeur, 1983); raciocínios de ordem lógica eou semi-lógica implicados nos

discursos teóricos (cf. Grize, 1984). Essa mediação pelos tipos parece constituir

um processo de desenvolvimento fundamental, à medida que é por ela que se

transmitem as grandes formas de operatividade do pensamento humano.

A maioria de nossas pesquisas atuais concernem, entretanto, ao

desenvolvimento praxeológico; elas visam a compreender como, a partir de

uma leitura de segmentos de atividade coletiva, se constroem essas formas

interpretativas que constituem as ações, de um lado, e os atores responsáveis,

de outro. Nossa caminhada consiste em selecionar um conjunto de tarefas

precisas, realizadas em três situações de trabalho contrastadas (usina, hospital,

instituição de ensino); para cada uma dessas tarefas, recolhemos três tipos de

dados: - os textos produzidos pelas organizações em questão para descrever

eou orientar essas tarefas (ordem do trabalho prescrito); - dos registros áudiovídeo

da realização efetiva dessas tarefas pelos trabalhadores (ordem do

trabalho real); - conversas realizadas com trabalhadores antes e depois da

realização das tarefas (ordem do trabalho representado). Isso nos forneceu três

tipos de dados linguageiros, produzidos em contextos diferentes, mas contendo

segmentos de interpretação da mesma tarefa. Analisamos esses segmentos sob

dois ângulos: - uma análise de conteúdo centrada sobre as dimensões da tarefa

ou do trabalho que nele estão tematizadas; - uma análise textual centrada sobre

os recursos lingüísticos que nele foram mobilizados (tipos de discurso; tipo de

localização temporal; modos de expressão da agentividade; modos de expressão

das modalizações pragmáticas, etc.). Os resultados dessas trabalhos são

múltiplos (cf. Bronckart & Groupe LAF, 2004), mas nós poderemos sublinhar

aqui somente dois aspectos. Eles fizeram aparecer primeiramente a diversidade

das formas interpretativas da atividade, que qualificamos de figuras de ação (cf.

17

Bulea & Fristalon, 2004). De maneira geral, essas figuras de ação se

caracterizam pela dificuldade de articular três dimensões: - o actante, com as

decisões de ação e as suposições de responsabilidade que o erigem em ator; - os

determinismos da tarefa que se apresentam, seja como normas gerais do

trabalho, seja como restrições de uma situação de intervenção determinada; os

aspectos do desenrolar temporal e lógico da própria tarefa. Nenhuma das

figuras identificadas propõe uma combinação completa dessas três dimensões;

elas acentuam uma ou mais, em detrimento das outras. Nossos resultados

fizeram aparecer, além disso, que se a distribuição dessas figuras é

evidentemente dependente da natureza das tarefas realizadas, assim como das

condições de produção verbal (trabalho prescrito, real ou representado), elas

são, sobretudo, claramente dependentes dos tipos discursivos mobilizados nos

segmentos interpretativos; essas figuras são, então, primeiramente, figuras

discursivas, o que explica em qualquer espécie a variedade das concepções,

teóricas ou profanas, que se pode ter das ações e dos atores.

2.5. As caminhadas de intervenção

Na perspectiva vygotskiana, a ciência integrada do humano deveria ter como

objetivo último tratar (ou até resolver) os problemas que se colocam

concretamente na vida das “gentes”: problemas de trabalho, de formação ou de

educação, de patologia social ou individual, etc. Aderimos firmemente a essa

concepção, e sustentamos, conseqüentemente que uma ciência do humano

somente tem legitimidade se se revela apta a analisar e a transformar as

situações de atividade humana. Essa é a razão pela qual, no quadro do ISD, ao

lado de trabalhos propriamente teóricos, foram operacionalizados, simultânea e

permanentemente, caminhadas de intervenção sobre situações práticas, na

ocorrência essencialmente no domínio da didática das línguas. A nosso ver,

essas caminhadas têm o estatuto de pesquisas, da mesma forma que as outras, e

recusamos toda distinção entre “pesquisa fundamental” e “pesquisa aplicada”;

além disso, consideramos que as situações práticas constituem um dos lugares

maiores de validação das proposições teóricas, no sentido em que se a

operacionalização de uma dessas proposições se revela impossível ou ineficaz na

prática, não é obrigatória sua rejeição, mas seu estatuto e sua formulação devem

18

ser re-interrogados. Enfim, conforme nossa ancoragem filosófica (cf. 2.2.),

pensamos que todo projeto da ciência do humano comporta necessariamente

uma dimensão política, e conduz, portanto, a engajar-se sobre terrenos práticos,

em vista de uma melhoria das situações, cujo teor é evidente e

democraticamente “discutível”.

No domínio da didática das línguas, dois primeiros tipos de caminhadas foram

conduzidos, e um terceiro é atualmente operacionalizado.

O primeiro tipo de intervenção consistiu numa aplicação direta nas reformas

dos programas de ensino textual na Suíça francesa, em particular no nível

secundário obrigatório; em uma perspectiva de diversificação dos tipos de

textos a ensinarem, as nossas propostas visaram centrar o trabalho didático, à

cada grau, sobre só uma e mesma “família de gêneros” (à finalidade narrativa no

grau 7; à finalidade informativa no grau 8; à finalidade argumentativa no grau

9).

O segundo tipo de intervenção consistiu na elaboração, com professores,

esquemas de lições chamadas de seqüências didáticas destinadas ao conjunto

dos graus da escolaridade obrigatória (cf. Dolz & Pasquier, 1993; Schneuwly &

Dolz, 1997). O princípio geral dessas seqüências é tentar integrar (e

hierarquizar) dois objetivos: - partindo da constatação que existem conjuntos de

gêneros textuais adaptados a situações de comunicação ou de atividades

determinadas, trata-se, a princípio, de tornar o aluno consciente dessa

correspondência, e de o tornar apto a escolher os modelos de gêneros

pertinentes para uma atividade de linguagem dada; - sabendo, além disso, que

os alunos encontram diversos problemas lingüísticos durante a redação ou a

leitura-compreensão de todo texto, trata-se de subordinar ao primeiro objetivo,

adaptativo, um objetivo segundo de matriz técnica de sub-conjuntos de

processos de estruturação de textos. Nessa perspectiva, as seqüências são

organizadas como segue (ver Dolz, Noverraz & Schneuwly, 2000). É, primeiro,

empreendido um importante trabalho de concepção da seqüência, implicando: -

a própria escolha do gênero a ensinar, que deve levar em conta sua utilidadefinalidade

prática e a possibilidade de o fazer funcionar na

Categoria pai: Seção - Entrevistas

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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