Entrevista  
Imprimir
 
Entrevista Hermano Tavares
A psiquiatria está reduzida a dar o remédio
Médico do Hospital das Clínicas (SP) diz que não basta eliminar a tristeza. É preciso ensinar as pessoas deprimidas a ter prazer

Por SUZANE FRUTUOSO Isto É

O psiquiatra Hermano Tavares nunca se deu por satisfeito com a crescente tendência de pacientes tratados apenas com medicamentos. Ele acredita no poder que os remédios têm de equilibrar as funções cerebrais, mas considera que nenhum deles é capaz de tornar alguém feliz. Bemestar não é tratar a tristeza e ponto. É promover a felicidade, diz o especialista do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Para elaborar essa tese, Tavares se apropriou da Psicologia Positiva, fundada nos Estados Unidos há dez anos. O movimento mostrou que todas as terapias se desenvolviam pautadas na doença e lançou a proposta de estudar o que faz as pessoas ficarem bem. O médico quer disseminar no Brasil a Psiquiatria Positiva. E tem grandes chances de obter sucesso nessa empreitada. A nova visão ganha cada vez mais eco num mundo no qual a depressão atinge 121 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

ISTOÉ - O sr. diz que eliminar o sofrimento não é suficiente, é necessário ensinar o paciente a encontrar prazer e bem-estar. Qual sua proposta?
Hermano Tavares - Desejo que a psiquiatria siga a proposta recente - e bárbara - da Psicologia Positiva. O movimento recebeu esse nome do pesquisador Martin Seligman. Ex-presidente da Associação Americana de Psicologia, ele começou a pesquisar nos anos 90 um método diferente do conhecido até então. Seligman mostrou que a psicologia se desenvolveu pautada na doença do paciente, apenas os momentos ruins eram estudados e trabalhados. E ninguém lembrou que era necessário destacar as horas boas, fazê-las presentes na vida das pessoas. Os esforços foram direcionados para apenas um dos lados da moeda, mas medicina não é só combate à doença. É também promoção da saúde e do bemestar. Há um longo caminho a percorrer até a felicidade e a um conceito mais amplo de saúde. Se existe a Psicologia Positiva, por que não criar a Psiquiatria Positiva? Há evidências de que isso é possível e desejável.

CLEIBY

ISTOÉ - Quais são as evidências?
Tavares - A dificuldade que as pessoas têm de entender que o contrário de tristeza não é felicidade. São sentimentos independentes. Inclusive, biologicamente falando, estão localizados em estruturas cerebrais diferenciadas. Às vezes, pela mesma razão, mas por motivos diferentes, você fica triste e alegre. Por exemplo, seu namorado ganhou uma bolsa para passar dois anos na Alemanha. Esse era o sonho da vida dele, você acompanhou todo o processo, fica feliz, orgulhosa - e triste, porque são dois anos separados. O mesmo evento suscitou dois sentimentos diferentes.

ISTOÉ - Diante dessa conclusão, o que deve mudar no tratamento psiquiátrico?
Tavares - Para começar, é necessário entender que bem-estar não é tratar a tristeza e ponto. É tratar a tristeza e promover a felicidade. Tratamentos psiquiátricos centrados em remédios são focados na redução das emoções negativas. Isso deve ser revisto. Temos tratamentos com antidepressivos (que são antidepressão), com ansiolíticos (que são antiansiedade) e com antipsicóticos (que são antipsicose). Mas combater a psicose não garante a racionalidade. O tratamento ideal é antidepressivo e pró-felicidade, ansiolítico e pró-serenidade e antipsicose e pró-racionalidade.

ISTOÉ - Os remédios podem ser abandonados por pacientes de saúde mental?
Tavares - A questão não é abandonar os remédios que existem. Jamais. Se não cuidarmos dessa parte, entregaremos tratamentos pela metade. Mas tratar os sintomas de depressão de um paciente não é tratar apenas os afetos negativos.

ISTOÉ - O tratamento convencional da psiquiatria também não inclui encaminhar o paciente para a psicoterapia?
Tavares - Se o especialista encaminha o paciente para a psicoterapia já faz mais do que só tratar a depressão. Seria ótimo se fosse sempre assim, mas não é a regra. A psiquiatria está reduzida a dar o remédio. Graças aos convênios médicos e à pressa que as pessoas têm de resolver os problemas. Ninguém quer ter tempo para refletir sobre a vida e as mudanças que devem ser feitas. O médico fala: Está deprimido? Toma aqui esse remédio e em quatro semanas você estará melhor da depressão. Ele ficará menos deprimido, mas não terá mais bem-estar.

ISTOÉ - O que é ser feliz?
Tavares - Temos que diferenciar alegria de felicidade. Alegria é um estado passageiro, felicidade é mais duradoura. É quando a pessoa é dominada a maior parte do tempo por afetos positivos e não negativos. E, no senso maior, o conceito de felicidade se aproxima do de bem-estar. Seria a noção mais ampliada do ser feliz.

ISTOÉ - Como alcançar esse bem-estar?
Tavares - Estou desenvolvendo um estudo com imagens que pode ajudar a entender o que é fundamental nessa busca. Na pesquisa, uso fotografias que causam diferentes emoções, como tristeza, nojo, raiva e felicidade. Quando examinei as imagens que causavam felicidade, eram, em geral, conteúdos que apelavam aos desejos. Uma comida gostosa, homens e mulheres bonitos. Objetos de consumo também. É a primeira observação: coisas que apelam para o desejo e que poderiam satisfazer essa vontade causam felicidade.

Categoria pai: Seção - Entrevistas

Pesquisar

PDF Banco de dados doutorado

Em 05 de fevereiro de 2024, chegamos a 1.314 downloads deste livro. 

:: Baixar PDF

A Odisseia Homero

Em 05 de fevereiro de 2024, chegamos a  7.465 downloads deste livro. 

:: Baixar PDF

:: Baixar o e-book para ler em seu Macintosh ou iPad

Uma palavra depois da outra


Crônicas para divulgação científica

Em 05 de fevereiro de 2024, chegamos a 12.590 downloads deste livro.

:: Baixar PDF

:: Baixar o e-book para ler em seu Macintosh ou iPad

Novos Livros

 





Perfil

Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

Leia Mais

Publicações

Do Campo para a cidade

Acesse: