O crescimento pode ser asfixiado

Data: 30012010
Veículo: ÉPOCA
Editoria:
Jornalista(s): ANA ARANHA

Assunto principal:

ENSINO MÉDIO
ENSINO SUPERIOR
EDUCAÇÃO

O salto do Brasil na economia poderá esbarrar na educação precária, diz o especialista da Unesco

Em 2007, o Brasil subiu no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Pela primeira vez, o país entrou no grupo de países desenvolvidos, segundo o indicador, que reúne dados de renda, educação e saúde. O Brasil, porém, acaba de perder posições no índice de monitoramento da educação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Segundo Kevin Watkins, coordenador dos dois relatórios, o fraco desempenho em educação pode, além de fazer o Brasil perder o recém-conquistado lugar no ranking da ONU, comprometer o crescimento econômico do país. De Davos, Suíça, de onde participava do Fórum Econômico Mundial, Watkins falou sobre as reformas necessárias na educação brasileira.

ENTREVISTA - KEVIN WATKINS

Divulgação QUEM É

Pesquisador do Global Economic Governance, da UNIVERSIDADE de Oxford, na Inglaterra, e colunista do jornal The Guardian. É mestre em ciências sociais e doutor em política

O QUE FAZ

De 2004 a 2008, foi coordenador do relatório de acompanhamento do Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU. Coordenou o último Relatório de Monitoramento Global da Educação para Todos, da Unesco

ÉPOCA - O desenvolvimento humano melhorou no Brasil, mas a educação piorou. O que isso diz sobre o tipo de desenvolvimento em curso no país?

Kevin Watkins - Nos últimos oito anos, o Brasil teve um desenvolvimento positivo em muitos aspectos. Houve avanço no combate à pobreza e melhora da nutrição. Na educação, caiu a desigualdade entre grupos de renda, gênero, raça e região. Mas a desigualdade ainda existe. Os maiores fatores de preocupação no Brasil são a qualidade e a desigualdade das escolas. Isso aparece no relatório, no índice que mede a sobrevivência no período de 1ª a 4ª séries (alunos que chegam à 5ª série na idade certa). Em São Paulo, ele é de 67% - um número baixo para o Estado mais rico. No Pará e na Bahia, apenas um terço dos alunos faz essa transição na idade certa. É preocupante.

ÉPOCA - Se esses aspectos da educação não melhorarem, o Índice de Desenvolvimento Humano do país poderá parar de crescer?

Watkins - Sim. A educação tem influência direta sobre a posição do país em diversos critérios do IDH. Para manter o crescimento, você precisa de um sistema de ensino que funcione. Um dos fatores de maior influência na mortalidade infantil, por exemplo, é a educação oferecida às meninas. A formação dá às pessoas condições de melhorarem sua nutrição e exigirem atendimento médico. E a Bahia e o Maranhão ainda têm problemas sérios de nutrição.

ÉPOCA - O Brasil é apontado como economia emergente, mas carece de quadros qualificados no mercado. A China e a Índia enfrentam o mesmo obstáculo?

Watkins - É um problema grave em todo o Bric (grupo de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China). Quanto mais a economia desses países cresce, mais se percebe a falta de quadros qualificados para trabalhar. Principalmente em áreas fundamentais para o crescimento, como engenharia, tecnologia, informação e telecomunicação. Ensinar os professores a desenvolver habilidades estratégicas para o mercado é uma questão central, na qual alguns países do Leste Asiático vão muito bem, enquanto o Brasil, assim como muitos países da América Latina, está ficando para trás. Não dá para construir uma economia forte e inclusiva com escolas de baixo desempenho. É como erguer um prédio sem antes fazer a base de fundação. Você pode começar a erguer, mas ele vai cair.

ÉPOCA - O entrave da formação é igual em todos esses países?

Watkins - Não. A China teve crescimento com diversificação da economia e investiu no ensino das habilidades (como a capacidade de solucionar problemas novos e o raciocínio lógico). Algumas ações foram inovadoras, envolveram parcerias entre governo, investidores externos e educação privada. O movimento é parecido com o que aconteceu na educação da Coreia do Sul. Já a Índia está passando por uma grave crise educacional. Eles ainda não conseguiram colocar o ensino de habilidades nas escolas. A não ser que deem uma virada nesse sentido, o crescimento do país será estrangulado por essa limitação. O Brasil, por enquanto, tem um grande problema, mas não está na mesma posição que a Índia. O sistema brasileiro é mais diversificado. há espaço para iniciativas interessantes. Mas, sem investimento em massa na qualidade das escolas, principalmente no ensino de habilidades no ENSINO MÉDIO, o crescimento do Brasil também poderá ser asfixiado.

Desenvolver habilidades estratégicas para o mercado é central.

Enquanto países do leste asiático vão muito bem, o Brasil fica para trás

ÉPOCA - Como evitar que isso aconteça?

Watkins - A medida imediata é localizar quem abandonou a escola no ENSINO MÉDIO e oferecer meios de fazê-lo voltar a estudar. Depois, construir elos entre a indústria e os provedores de educação não formal. O Brasil precisa de parcerias público-privadas para angariar investimentos para as áreas de formação estratégica. O Senai é líder nisso. Um sistema inovador de formação para o mercado de trabalho, pelo qual o próprio presidente Lula passou. Esse tipo de programa precisa ganhar escala para alcançar mais adolescentes e jovens adultos. Paralelamente, o país deve construir um sistema público de educação que funcione do começo ao fim. É como um encanamento. Não adianta caprichar na ponta se há um furo na base.

ÉPOCA - O Brasil criou metas e há programas que cobram resultados por meio de incentivos, como bônus para os professores. Iniciativas assim funcionam?

Watkins - Os resultados são variados. Sem dúvida é importante ter metas nacionais que cheguem até as escolas. Em todo o mundo há um déficit de informação sobre a qualidade de cada escola. Sobre os programas de incentivo, há uma tendência, por parte dos reformadores da educação, em enxergá-los como solução rápida. E isso não existe na educação. Ainda não há evidências conclusivas sobre os resultados. De acordo com a experiência nos Estados Unidos e no Chile, funcionou em algumas escolas, em outras não. A Inglaterra também está tentando pagar de acordo com os resultados. O que sabemos até agora é que apenas isso não teve impacto direto. Para levantar o padrão de todas as escolas, é preciso intervenções em muitos níveis e de longo prazo. Formar e treinar os professores, amadurecer um bom currículo, desenvolver e disseminar práticas de sala de aula que facilitem o aprendizado, em vez de deixar os alunos sentados enquanto o professor fala.

ÉPOCA - O Brasil colocou a maior parte das crianças na escola, mas elas se formam sem saber o que deveriam.

Watkins - Há um fenômeno comum em todo o mundo, que nós chamamos de a educação de contar cabeças. O progresso mais rápido é sempre na hora de matricular as crianças. A melhora no aprendizado é mais complexa, exige a articulação de uma série de fatores. Leva tempo.

ÉPOCA - Qual é a mudança mais estratégica para o Brasil investir em qualidade?

Watkins - Nos países que conseguiram quebrar essa barreira houve investimento no treinamento dos professores. Além disso, um dos fatores importantes para o Brasil é elaborar uma fórmula mais forte para redistribuir o orçamento. O país tem um sistema descentralizado, no qual os Estados mais pobres recebem menos investimento por aluno. Para melhorar a educação do país como um todo, você precisa colocar mais dinheiro onde há menos recursos. O Fundef (fundo nacional para a educação) já foi um avanço. Hoje, parte importante do orçamento para as escolas do Maranhão e do Pará vem do governo federal, como redistribuição dos recursos. Mas o sistema ainda reproduz as desigualdades de arrecadação. Em alguns Estados do Nordeste, o orçamento por aluno chega a ser 30% inferior ao de São Paulo ou do Rio Grande do Sul. Nos países desenvolvidos, as fórmulas para o financiamento da educação seguem a lógica oposta: se a escola está em um Estado ou bairro sem recursos, ela recebe mais investimento que as outras.

 

 

 

Categoria pai: Seção - Entrevistas

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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