Comentários sobre o ensaio de Marcos Bagno “A dupla face do ‘errogramatical _ a face lingüística e a face sociocultural “

 

Stella Maris Bortoni-Ricardo

1º de novembro de 2004

 

 

poucos dias começou a circular no nosso grupo o ensaio de Marcos Bagno (MB). O que se segue são algumas considerações sobre esse trabalho.

 

1.                     Foi feliz MB ao iniciar suas reflexões situando o ‘erro’ numa perspectiva histórica.  Essas informações  nos permitem ter mais clareza sobre um fenômeno que está tão naturalizado na nossa visão de mundo, que nem sequer suscita muito estranhamento na sociedade. Interessante a referência ao “consensus bonorum” e ao consensus  eruditorum” entre os romanos. ( De onde o autor obteve essas informações?)

2.                     A ênfase do ensaio é na dupla natureza ( ou dupla face) do ‘erro’ : a lingüística e a social. Esta última está relacionada às dimensões sócio-simbólicas das variáveis lingüísticas. Sererroou não sererro’ depende da carga sócio-simbólica associada à variante. Wolfram e Fasold (1974)  estabelecem uma distinção útil entre variáveis que definem uma estratificação  “sharp” e as que definem uma estratificação “gradient”. Desde 198385 venho me valendo dessa distinção para analisar variáveis no Português do Brasil ( variáveis graduais e descontínuas)  Os dois tipos se distinguem pela distribuição da freqüência, mas principalmente pela consciência que a sociedade tem deles e o grau de estigmatização que recebem. A própria comunidade de pesquisadores ( gramáticos tradicionais e lingüistas descritivos) vai aos poucos ‘aceitando certas construções e resistindo a outras.

3.                     Como observa MB ( citando também Marta Scherre ) há variáveis  que passam despercebidas. É o caso da falta de concordância com sujeitos pospostos. Nos meus próprios textos, constato, ao revisá-los, que emprego muitas concordâncias não-padrão ou hipercorreções.

 

4.                     O  caráter sócio-simbólico das variáveis também joga um papel importante na construção das expectativas mútuas quando as pessoas interagem  ( “Quanto eu tenho de me monitorar para falar com ele neste momento?” ), bem como no julgamento que fazemos quando  recorremos ao código padronizado da língua como um quadro de referência. MB levanta ainda outras questões importantes:

 

5.                     Uma língua segue uma deriva, que não representa progresso ou decadência. Ela apenas vai-se alterando, de acordo com suaprogramaçãointerna e com as circunstâncias sócio-históricas das comunidades de fala. Mas com freqüência deparamos com nostálgicos  comentários sobre a bom português de antigamente. Até de profissionais da área ouvi isso.

 

6.                     A variação é inerente a toda língua natural ( Além de traço inerente é também uma fonte de recursos).

 

7.                     Há uma questão no texto que me parece polêmica .  MB está sugerindo ( ou estou enganada?) que é no mínimo uma ingenuidade, no máximo um desrespeito,  acreditar-se  que o uso de formas prestigiadas de falar podem garantir um melhor ajuste do indivíduo na sociedade.  Também acho que acreditar numa relação nômica, necessária, entre  conhecimento da variedade de prestígio e ascensão social é uma atitude simplista. Mas como ignorar o Enem, o Provão, o vestibular, os concursos públicos e todo o aparato que a filosofia meritocrática  contemporânea estabelece como “gatekeepers” no acesso às posições de mais status e melhor temuneração?  Isso me faz lembrar de um verso do samba “Tô” de Tom , na voz de Zélia Duncan, que está freqüentando as paradas : “Tô estudando pra podê ignorá”.

 

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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