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Casa de Rui Barbosa libera acesso a documentos secretos de Pedro Nava

  Luiz Carlos Murauskas - 20.mar.84/Folhapress  
SÃO PAULO, SP, BRASIL, 20-03-1984: O escritor mineiro Pedro Nava (1903-1984). (Foto: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress)
O escritor mineiro Pedro Nava

MAURÍCIO MEIRELES
DE SÃO PAULO

09/04/2017  02h00

Foi a luz de um círio -como diz o título de um de seus livros- que se apagou na noite de 13 de maio de 1984 debaixo do oitizeiro. Pedro Nava foi encontrado morto, aos 80 anos, próximo a sua casa, no Rio. O autor tinha um revólver calibre 32 e os dedos sujos de sangue e pólvora. Pouco antes, recebera um telefonema misterioso.

Aos amigos, parecia inexplicável que o grande nome do memorialismo brasileiro pusesse um ponto final na própria vida. Na véspera, Nava participara feliz de um "sabadoyle", famoso encontro na casa do bibliófilo Plínio Doyle. Tinha planos para os dias seguintes.

Os repórteres foram a campo, e uma suspeita grave surgiu -Nava estava sendo chantageado por um garoto de programa-, mas não chegou aos jornais. Em "proteção" à honra do autor, amigos dispararam uma operação abafa. Colou.

Mais de 30 anos depois de sua morte, as anotações que o escritor fez sobre homossexualidade se tornam públicas -elas integram um conjunto, antes secreto, de documentos de seu acervo, guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa.

A instituição resolveu reavaliar o status de sigilo dos papéis depois da celeuma envolvendo a carta de Mário de Andrade, em posse da instituição, que foi mantida em sigilo por 40 anos e revelada em 2015 -ainda que até as camélias no jardim da Casa Rui soubessem que o modernista falava de sua sexualidade nela.

Muitos dos papéis não estão datados. Em um deles, Nava escreveu uma pequena oração: "Senhor, Senhor! Dilacerai a minha carne, mas tende pena dos homossexuais".

Com a morte do autor, seus amigos podem ter ficado surpresos com a chantagem do michê. Mas desde muito cedo Nava deve ter sofrido com boatos sobre sua sexualidade.

CARTA ANÔNIMA

Prova disso é a carta anônima, com um rosário de ofensas, enviada ao memorialista em 28 de janeiro de 1983: "Se já não estivesse você senil com os seus oitenta e alguns, eu diria que você é um cínico perfeito, um molambo moral, um indecente, um torpe. [...] Já em Belo Horizonte eu ouvia dizer coisas sobre você."

Essas "coisas", diz o missivista, eram que Nava gostava de "troca-troca". Ele termina com uma ameaça: "Vou lhe telefonar uma noite dessas."

A carta está assinada com as iniciais J.L.M.F. -e a única pista que o autor do documento dá é ter frequentado a faculdade de medicina com Nava na década de 1920, mas "um ano adiantado".

É possível consultar a lista de formandos na faculdade de medicina da UFMG em 1925, 1926, 1928 e 1929 -os dois anos antes e os dois depois daquele em que Nava se formou, 1927. Não há ninguém com essas iniciais na lista.

Na turma do autor, há um médico chamado José Maria Figueiró -mas, conforme Nava escreve em "Beira-Mar" (Companhia das Letras), Figueiró era seu amigo. E, de acordo com a família do médico, eles continuaram próximos toda a vida.

"Conheci muito o Pedro Nava. Ele e papai foram colegas de internato na Santa Casa. Meu pai até o defendeu no episódio com o Hugo Werneck", diz o médico João Virgílio Uchoa Figueiró, filho do colega de Nava.

Hugo Werneck, diretor da faculdade de medicina, seria um desafeto de Nava durante toda a vida, após ter tentado expulsar o escritor do curso por encobrir um colega envolvido em um incidente. O autor da carta anônima, aliás, cita um Hugo como alguém que comentava os boatos sobre o memorialista.

Um dos documentos mais fortes agora revelados traz um desenho do dorso de um homem musculoso, também sem data. Nava anota ao lado: "Possivelmente impressão guardada desde 1929, no meu quinto ano de [hospital] Pedro 2º. Fui [...] ver os trabalhos anatômicos no anfiteatro da Santa Luzia."

Então o escritor descreve o cadáver de um homem: "Dentro da solução formolada o cadáver de bruços de um homem musculoso. Seus cabelos flutuavam no líquido, sem gravidade."

"A impressão que guardei foi a do posterior do tórax como a região mais avara, muda, anímica, cadaveirosa do homem. Homem, não gênero humano, mas homem macho", prossegue a anotação.

Há nos papéis amarelados um glossário de gírias gays antigas que Nava recortou. São palavras e expressões como ocó (homem), amapô (mulher), mona de equê (homossexual), ilê (casa), aquê (dinheiro), tia Cleide (carro de polícia).

E também frases completas como "fazer o calçadão da Broadway" (passear na Cinelândia, no centro do Rio). Nas mais explícitas, a tradução é comportada. Caso de "levei o ocó para o ilê e fiz um baculolê odara" (levei o homem para casa e "ficamos numa boa") ou "conheceu um ocó que tinha a ocanha odara" (conheceu um "homem lindo").

Procurado, Joaquim Nava, sobrinho e herdeiro do autor, diz não se opor à divulgação dos documentos.

"Pedro Nava dava asas à sua imaginação. O sujeito que escreveu essa carta [anônima] é um covarde", diz ele, acrescentando que não vê nos documentos nada que sugira que o tio fosse homossexual.

LIVROS

A sexualidade de Nava foi tratada pela primeira vez -com delicadeza- em "A Solidão Povoada" (1996), biografia do autor escrita pela francesa Monique Le Moing. À época, o livro causou atritos com os detentores dos direitos da obra do escritor.

O jornalista Flávio Pinheiro, que à época dirigia a "Veja" no Rio, acredita que não havia evidências suficientes para publicar a história. Ele chegou a ir com um repórter à casa de um garoto de programa que tinha uma foto abraçado a Nava, diz.

"Sei que hoje muitos consideram um erro, mas era uma evidência frágil", explica Pinheiro.

Zuenir Ventura, em "Minhas Histórias dos Outros" (2005), também tratou do tema. O jornalista, que era diretor da revista "Isto É" no Rio, conta que decidiu não publicar a história de que Nava estava sendo chantageado.

"Amigos dele começaram a me ligar, como o Hélio Pellegrino [pedindo para não publicar]", conta Zuenir. "Faço a autocrítica, eu tinha esse preconceito naquela época. Deveríamos ter tratado sem nenhum preconceito." 

 

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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