Por Maria Luiza Bortoni 
 
Hoje, recordei-me de uma viagem que fiz, com mais três pessoas, no inverno de 1950. Eu menina, minha mãe, Maria Aparecida, Stellinha, minha irmãzinha de cinco anos e a Ana, uma senhora, misto de empregada e tia, de uma dedicação extrema.
Aportáramos à estação de Maria da Fé às cinco horas da manhã, pois o horário do trem chegar era as cinco e trinta. Minha mãe comprou as passagens para São Lourenço e indagou ao agente ferroviário:
- Já deu a partida?
- Não, minha senhora, o trem está parado em Itajubá, consertando um problema na máquina.
- Muito obrigada, senhor.
Sentamos em um banquinho, uma bem juntinha da outra, para nos esquentarmos um pouco em um frio de dois graus centígrados. As inúmeras sacolas que trouxéramos empilhadas ao lado.
Stellinha, começou a chorar de frio. Ana a cobriu com uma manta e lhe de um biscoito e ela se aquietou. Eram seis e meia quando o agente bateu o sino avisando que o trem saíra do Pedrão, uma pequena estação entre Itajubá e Maria da Fé. O sol vinha nascendo, trazendo um pouco de calor e luz, quando a maria fumaça, resfolegando devido ao esforço para subir a serra, parou na estação de Maria da Fé.
Ficamos em pé, as juntas doloridas por causa do frio, e nos dirigimos para a locomotiva. O agente veio nos dizer:
- Não tenham pressa, a máquina ainda vai beber água. Realmente, ainda existe, ao lado da estação, uma caixa de água, no alto de um sustentáculo de cimento, de onde saia o precioso líquido para o caldeirão da máquina a vapor.
Acomodamo-nos no vagão da primeira classe, que diferia da segunda porque as poltronas eram de couro, mais macias que as outras, de madeira.
Lentamente, o comboio foi engatando a marcha e passou a correr, porque agora era só descer a serra. Fomos olhando as paisagens superpostas nas janelas: serras, árvores, pequenas casas... O conferente da locomotiva ia passando e parando ao lado dos bancos. Olhava as passagens e as picotava.
Logo chegamos à estação da cidade de Cristina, onde parou-se por poucos minutos, apenas para subirem três passageiros.
Prosseguimos e não demoramos muito para chegar a Silvestre Ferraz, que hoje se chama Carmo de Minas. Nesta estação o trem demorou mais um pouco. Carregadores acomodaram sacos de café no vagão de carga.
Em seguida seguimos para uma localidade chamada Ibatuba, hoje Soledade de Minas. Aí, todos os passageiros entristeceram, nós inclusive. Naqueles idos de 1950, as pessoas, que moravam na região serrana do Sul de Minas, não tinham outras opções para viajarem. Não havia estrada asfaltada, muito menos transportes coletivos, como ônibus. Os poucos automóveis, todos importados, não ousavam rodar por aqueles caminhos poeirentos e esburacados. A única solução era o transporte ferroviário. Assim todos tinham que se submeter às normas da Rede Mineira de Viação.
O trem proveniente de Itajubá ficava parado na estação de Ibatuba, à espera de outro que vinha de Três Corações. Nada mal se a estação de Ibatuba fosse um lugar aprazível, mas, ao contrário, era um local imundo. Os banheiros exalavam um cheiro nauseabundo à distância. Não havia coisa alguma de comer para se adquirir, a não ser pastéis horríveis que um vendedor carregava em uma cesta engordurada.
Minha mãe nos olhou desolada. Não tínhamos outra opção. Levantáramos de madrugada e nossos estômagos doíam. Ana, sempre diligente abriu uma das sacolas e tirou nosso farnel. Em uma vasilha limpíssima, havia frango com farofa. Mamãe limpou nossas mãos com uma loção que carregava na bolsa e nós quatro em minutos, comemos a matula. Depois tomamos água limpa, de mina, que havíamos levado em uma garrafa.
Agora era só aguardar o trem tricordiano. Neste dia ele demorou, mas acabou chegando. Atrelaram nova máquina aos vagões e prosseguimos semimortas para São Lourenço, minha cidade natal.
Aí foi só alegria. Assim que a máquina parou, Jaburu pegou nossas sacolas e nos ajudou a descer do trem. Este carregador era um homem muito alto e forte e de uma bondade e simpatia sem limites.
- Bem vindos à terrinha. Vão abraçar o tio. Podem deixar a bagagem comigo.
Fomos correndo cumprimentar o tio Geraldo, agente da estação de São Lourenço. Fomos acolhidas com tanto afeto que nos esquecemos do cansaço.
Depois o tio nos colocou na charrete do amigo Murilo, onde já estavam acomodadas nossas bolsas. Não permitiu que minha mãe pagasse o Jaburu. Ele mesmo o fez.
- O mesmo endereço de sempre, dona Aparecida? – perguntou Murilo à minha mãe.
- Sim, Murilo.
Fomos para a rua Dr. Ribeiro da Luz, para a casa de meus tios Ritinha e Horácio Passos, onde sabíamos que seríamos recebidas com muito afeto e carinho. Stellinha batia palmas, eu sorria.
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