Estes dois textos são muito representativos na minha vida. São ambos exemplares do gênero discurso de formatura, o primeiro é da minha formatura de ginásio. Eu tinha quinze anos e até me enterneço com a minha ingenuidade e as constantes referências ao discurso religioso, tão onipresente àquela altura. O segundo, três anos depois, já é um pouco mais realista e demonstra a maturidade que eu adquirira no interstício. É um bom exercício compará-los. Voltarei ao tema.

 

Discurso de Formatura do Curso Ginasial

Colégio Sion de Campanha-MG

Dezembro de 1960

(Com a atualização ortográfica, mas sem correção de pontuação ou sintaxe)

 

            Agora Ela abre os braços. E uma após outra vai entregando as florinhas coloridas que sustinha junto ao coração. E o ramalhete multicor vai-se dispersando. As florinhas abraçam-se, dizem adeus, mas não há lágrimas. Elas sabem que já não podem mais ficar todas reunidas nos braços da Virgem de Sion. É chegada a hora. O navio da partida. Mas deixai que antes de partir, antes de se embrenharem pelos caminhos mais diversos, mas deixai que estas florinhas balbuciem seu obrigada. Um obrigada que vem do mais fundo da alma. Um obrigada que a todo sinceridade. Um obrigada que é todo gratidão; gratidão para com as Irmãs desta Casa. Irmãs que dia após dia, recomeçam a sua missão. Missão de educar meninas desenvolvendo-lhes as virtudes, corrigindo-lhes os defeitos, formando verdadeiras personalidades para o reino de Deus. Delas aprendemos tanto, delas aprendemos muito, delas aprendemos aquilo que levaremos para a vida em fora felizes e irradiando felicidade. Enquanto no mundo há luta aqui encontramos paz. Enquanto os homens se instalam indiferentes ao sofrimento alheio, elas nos ensinam a caridade. Caridade de uma palavra, de uma esmola, caridade de um sorriso. Enquanto os homens creem no seu próprio eu, em sua própria força, elas nos ensinam a confiar em Deus. Muitos se apoiam na segurança, mas nós na confiança. Se no mundo há ódio aqui aprendemos a amar. Obrigada mestras queridas, obrigada pela mensagem que nos trouxestes. Mensagem de vida verdadeira, mensagem de verdade, mensagem de Deus, mensagem que espalharemos no mundo, na árdua tarefa de uma humanidade melhor.

 

            Vede pais queridos os botõezinhos que aqui trouxestes um dia e colocastes sobre a proteção da Virgem de Sion hoje vos são entregues. Mudados, modificados, transformados. Agora são flores prestes a desabrochar. São flores que anseiam derramar seu perfume envolvendo a todos com sua alegria juvenil. Somos jovens, sorrimos, cremos na vida, temos ideal, e hoje vemos nossos esforços coroados. Mas não ignoramos as mãos que às ocultas nos ajudaram a atravessar a vale árduo da primeira caminhada. Mãos que trabalhavam, mãos que se juntavam para orar, mãos que se envelheciam e nem davam por isso tão ocupadas estavam com suas alegres filhinhas.

 

            A vitória é vossa, e se possível nos fora a juntaríamos mais uma pérola à coroa de dedicação e bondade que Deus vos está preparando.

 

            Colegas, ao longe ouvimos uma voz. É a voz que nos chama e nos arrasta. O nosso barco está pronto, longo tempo passamos a prepará-lo. Cotamos as toras, assentamo-las, pintamo-las com cores vivas e até as enfeitamos. Agora nossa nave nos levará longe. Levará para onde Deus nos chama. Lá onde temos uma missão a realizar. Lá onde temos uma construção a fazer. Vamos partir mas Sion para nos nunca será passado. Será um presente vivo que ficará conosco, ajudando-nos a viver. Quem de nós poderá esquecer-se das badaladas do relógio, do murmúrio do riacho, do ciciar dos bambus? Quem se esquecerá das partidas de voley, do cinema, das aulas ora agitadas ora silenciosas? Quem se esquecerá da nossa capela onde a Virgem lá na frente nos chama para entregarmos a Jesus? Não, não podemos sentir saudades de Sion pois levamos Sion conosco. Levamos conosco a mensagem que nos foi transmitida aqui. A voz está mais forte, mais próxima, devo parar, devemos partir. Mas antes de partir num último esforço em comum façamos algo de grande. Dirijamos nossos olhares à Virgem de Sion, à nossa Mãe e Rainha e façamos-lhe uma prece.

 

Mãe,

            É a vós que queremos falar pela última vez todas juntas. Tornai estas vossas filhinhas digas da missão que lhes confiastes. Fazei que nenhuma fracasse, para que haja no mundo mais vinte e três instrumentos úteis para a construção do reino de Deus.

 

 

Discurso de Formatura do Curso Normal

Colégio Bennett do Rio de Janeiro-RJ

Dezembro de 1963

(Com a atualização ortográfica, mas sem correção de pontuação ou sintaxe)

 

Exma. Senhora Reitora do Colégio Bennett, Profa. Sarah Margareth Dawsey;

Exmo. Representante do Governador do Estado da Guanabara, Dr. Paulo Amora;

Exma. Representante do Embaixador dos Estados Unidos, Sr. Lincoln Gordon, Miss Helen Sur Handsen;

Exma. Paraninfa da Turma John F. Kennedy, Profa. Lisette de Almeida Wanderley;

Exmo. Senhor Presidente do Conselho Superior do Colégio Bennett, Dr. Erasmo Moura;

Senhoras Diretoras, Senhores Professores.

 

            No instante em que vemos transformado um sonho longínquo numa realidade concreta e presente, confundem-se em nosso coração tão diversas emoções, que se torna difícil expressá-las. A hora tão sonhada chegou, trazendo consigo uma sensação de triunfo e de sucesso, que desperta em nós a deliciosa de êxito, que teima em ocupar o nosso ser neste momento.

 

            Mas seria inútil esta cerimônia se não transmitisse ela algo mais que a ideia da vitória pessoal. Todo este ambiente nos evoca um pensamento, que de nós não se afastou durante os anos do nosso curso. Um pensamento que encanta e atemoriza, entusiasma e aflige. É o da imensa responsabilidade que nos será transmitida, oculta no diploma que vamos receber. A noção rósea de um sonho de adolescente vemos transformada na ideia da missão que nos espera e nos chama para a ação.

 

            Esta maturação de ideias, porém, foi lenta e progressiva.

 

            Quando aqui chegamos, três anos atrás, iniciamos uma aventura desejada, mas desconhecida. A vontade de ser professora era incipiente e superficial. Desde nossa primeira aula sentimos a preocupação que tinham em fazer deste desejo uma vocação; desta inclinação, um objetivo de vida. A finalidade essencial de nossa profissão nos foi sendo revelada num trabalho contínuo, em que a força atuante não eram lições ou palavras, mas exemplos de vidas bem vividas e de espírito profissional bem compreendido. Pregaram-nos o amor à infância. “É preciso antes de tudo amar a criança.” E nos ofereceram um espetáculo sem igual de desinteressada afeição real, de idealismo apostólico. Em cada pessoa que nos deu um pouco de seu tempo e de sua vida no sentido de ajudar em nossa formação nós encontramos um amigo. Aqui podemos sentir e viver o verdadeiro amor, que parte do educador para o educando e que dignifica todo o processo da educação. “É preciso antes de tudo amar a criança.” Se não nos tivessem ensinado nada mais além disso, ainda assim nós seríamos eternamente gratas a este Bennett, que nos transmitiu a mensagem fundamental capaz de dar sentido na nossa vida de professoras.

 

            O desempenho dos nossos mestres no magistério é um exemplo, suas pessoas para nós se tornaram um símbolo.

 

            O Colégio que teve tamanho empenho em nos ensinar os meios e recursos indispensáveis à eficiência na profissão, foi ainda mais cuidadoso, ajudando-nos a vislumbrar as finalidades essenciais do magistério.

 

            Estes ensinamentos aqui recebidos e as experiências aqui vividas marcaram e moldaram a nossa personalidade. Munidas de tal bagagem, iniciaremos o nosso caminho, e, ainda que humildes, as nossas obras, no decorrer desta jornada, serão testemunhas do nosso reconhecimento.

            O preito de gratidão que nós lhe devemos, não lhe renderemos agora, mas sim em cada minuto de nossa vida, em cada iniciar de um novo dia. Possamos levar a cabo esta missão que nossos mestres repartiram conosco, e aí, então, voltaremos para lhes entregar a nossa vitória como paga pelo bem que nos fizeram.

 

            Levamos do nosso colégio recordações muito caras, que nos hão de servir de estímulo e de conselho no decorrer de nossa carreira. Entre estas está a preciosa lembrança de nossa paraninfa. O seu nome é sinônimo de entusiasmo que se renova a cada hora, alimentado por forças que partem de um coração muito nobre e muito grande.

 

            Seu amor pela vida, traduzido em seus gestos espontâneos, o seu constante empenho na busca da maior perfeição do seu trabalho, e, enfim, a sua dedicação incansável e integral são mais que simples exemplos. São forças vivificadoras, são um hino de exaltação ao magistério.

 

            Nós admiramos muito e nos sentimos honradas e felizes como suas afilhadas.

 

            Queridas colegas, estamo-nos despedindo. Mas antes de nos despeçamos, temos uma coisa importante para fazer juntar pela última vez. Deixamos que se calem nossas palavras e se abra nosso coração.

 

            Nesta hora falemos a nossos pais do nosso amor, de nossa admiração, que hoje é maior do que nunca, e de nosso reconhecimento.

 

            Nós crescemos, vimos realizados os nossos ideais, vamos evoluindo a nossa maneira de sentir e de pensar e eles permanecem sempre os mesmos, eternamente jovens, constantemente fiéis, vigilantes perpétuos da nossa felicidade.

 

            Vamos tecer-lhes uma coroa com coroa com os louros de seus méritos incontáveis e ornemos-lhes a fronte, porque hoje é um dia de vitória para eles. Está cumprida mais uma etapa de nossas vidas. Obrigada pais queridos porque nos deram a nossa vida e como se isso não bastasse nos deram, também, toda a sua vida. Que Deus lhes pague.

 

            Minhas colegas, é costume associar-se às solenidades de formatura um sentido de termino, de saudades. Creio, porém, que aqui estamos reunidas não para ver findar esse maravilhoso convívio de três anos. Aqui estamos para que da comunhão de nossas presenças, de nossos sentimentos, e de nossos ideais façamos surgir um alento novo e um novo lema, que nos vá nortear a vida de agora em diante.

 

            Nós não estamos terminando, queridas colegas. É hoje que começamos. Cessou para nós o tempo de receber. É chegada a hora de dar.

 

            Lembra-me agora a história da menina que nasceu em uma terra maravilhosa, onde reinavam a mais perfeita harmonia e a mais completa felicidade. Ela, no entanto, era infeliz. Infeliz porque se sentia inútil, e assim via desperdiçado o seu imenso manancial de amor, de desejos de fazer o bem e de necessidades de dar-se. Ali ninguém precisava dela e por isso ela era infeliz.

 

            Se for realmente este, minhas amigas, o segredo da felicidade, só me resta dizer: Lancemo-nos ao largo e sejamos felizes.

 

            A tarefa que nos aguarda é imensa e urgente. Esperando por nós está uma multidão confiante, que conta conosco e aquém não podemos trair. A nossa pátria nos vem entregar os seus filhos e os filhos de seus filhos. Trabalhando com material humano, teremos a oportunidade de ajudar a construir um Brasil mais forte e, principalmente, mais feliz.

 

            Estas palavras, pela grandiloquência de seu sentido, podem parecer pretenciosas. Entretanto, não as pronunciamos nem cremos nelas por pretensão. Animam-nos, tão-somente, um grande entusiasmo, uma juventude ardente e o desejo que temos de acertar, de fazer o bem, enfim, de cumprir fielmente a nossa missão.

 

            Que Deus nos ajude a ser fiéis. Fiéis à Pátria, que espera o nosso trabalho. Fiéis àqueles que nos criaram e nos formaram, pais e mestres, e que nos emprestam sua confiança e seu estímulo. Fiéis a nós mesmas, que cremos na vida e que partimos para o trabalho com o coração cheio de ardor e a alma repleta de entusiasmo. E fiéis a Deus, que pregou o amor, a caridade, e a fraternidade universal.

 

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