Acerto de contas

por Livia Perozim

Ubiratan DAmbrosio 

Para o criador da etnomatemática, a escola ignora a Matemática que os alunos conhecem e adota um ensino frio

Na década de 1970, o professor Ubiratan D’Ambrosio construiu teses sobre um novo campo de conhecimento, a etnomatemática, que valoriza a cultura das civilizações. Mestre e doutor em Matemática, ele havia despertado para o fato de que a escola não considerava a diversidade e o contexto cultural dos alunos. Com isso, a Matemática era e continua a ser “fria e formal”. Quando apresentou as suas idéias em um congresso na Austrália, em 1984, não foi bem recebido pela comunidade acadêmica, em especial pelos europeus. Hoje, aos 75 anos, o professor emérito da Unicamp e professor de pós-graduação da PUC-SP já formou incontáveis educadores e deu muitas conferências nos Estados Unidos, na América Latina, na Europa e na Ásia. As suas idéias e propostas agora atraem a atenção de matemáticos do mundo todo, principalmente do Brasil, que estão pesquisando as bases culturais e históricas da Matemática de diversos povos.
D’Ambrosio espera que os estudiosos da etnomatemática não parem de se multiplicar. O que ele quer com isso? “Que a sociedade e a comunidade acadêmica e escolar percebam que a Matemática que conhecemos hoje, do Mediterrâneo, é apenas um modo de medir, explicar e quantificar o universo. Existem outros.”
Mas que fique claro: ele não sugere que a escola deixe de ensinar a Matemática que hoje é dominante, mas que saiba valorizar o conhecimento que os alunos carregam do seu cotidiano e da sua origem cultural.
Em entrevista a Lívia Perozim, D’Ambrosio critica o ensino que valoriza o raciocínio quantitativo e não o qualitativo. E os atuais modelos de avaliação, nacionais e internacionais: “O Brasil é um país com baixo rendimento. Se os resultados dos exames fossem coerentes, não teríamos bons engenheiros aqui.”
O matemático também explica o papel da tecnologia na etnomatemática da sociedade contemporânea e ressalta a importância de o professor ter acesso a conhecimentos antropológicos e históricos da Matemática. “Ser professor é partir para o novo, sempre.”

Carta na Escola: Como o senhor iniciou os estudos que chegariam à etnomatemática?
Ubiratan D’Ambrosio: É uma história de vida. Na década de 1960, durante o período militar, eu morava nos Estados Unidos e fui convidado para dar aula de doutorado na África, num projeto da Unesco. Passava duas ou três semanas lá e voltava. Fui conhecendo a cultura dos africanos e percebi que a Matemática avançada que eu lhes ensinava não tinha nada a ver com o contexto cultural em que eles viviam. Ao mesmo tempo, via que as cidades estavam carregadas de uma Matemática que não era aquela européia, ensinada na academia e nas escolas. Depois, viajando pela América Latina, tive a certeza de que meu sentimento era correto: não existe uma Matemática única. Vide Machu Picchu, no Peru, uma cidade construída com técnicas de urbanismo e que resistia a terremotos. Isso é Matemática da cultura inca.

CE: É, então, a história da Matemática?
UA: Sim, e por isso é fascinante. Quando comecei a investigar, percebi que havia pouca literatura sobre o assunto. Os historiadores não focam a Matemática dos povos. Muitos colegas começaram a prestar a atenção em comunidades indígenas e perceberam que tudo tem método matemático. Pessoas que jamais passaram por uma escola fazem uma Matemática que nasce da prática e que é dirigida para o seu contexto e cotidiano. É só olhar aquela desenvolvida por comunidades de agricultores. Eles têm métodos próprios de contagem de terra, de separação dos alimentos, de colheita. O mesmo com os artesãos.

CE: Mas essa Matemática substitui aquela que aprendemos na escola?
UA: A Matemática pura que a gente conhece na escola surgiu da região do Mediterrâneo, a partir dos egípcios, dos babilônios, dos judeus, dos gregos. Ela é importante porque é dominante hoje, mas existem outras. A Matemática tem a ver com a sociedade e grande parte da população é marginalizada, não só por razões econômicas, mas também culturais. Em casa, na família e nos diferentes grupos culturais há um fazer matemático que a escola ignora. A esse saber e a esse fazer que denominamos etnomatemática, que tem forte base antropológica.

CE: Por que dar atenção a essas Matemáticas de grupos culturais?
UA: Porque elas fazem um apelo às raízes, às tradições, à historicidade. Isso faz com que esse indivíduo sinta orgulho de suas origens culturais. Se ele fizer isso, vai ser capaz de aprender outras coisas. Eu vou para muitos congressos internacionais. Se eu falar a minha língua, ninguém vai me entender. E o português é extremamente importante, é a língua com que eu sonho, penso. Ao falar o inglês, eu não perco o português, mas entro num outro nível de relações. Com a Matemática não é diferente.

CE: Como o professor pode trabalhar a etnomatemática em classe?
UA: Despertando no aluno uma motivação que tenha a ver com a sua cultura e suas tradições. Ou seja, utilizando coisas que ele já sabe e que têm a ver com a sua origem. Os conceitos abstratos da Matemática são mais difíceis de ir ao encontro do interesse dos jovens. A Matemática da escola é formal, fria.

CE: Por que a Matemática da escola é tão distante do nosso cotidiano?
UA: O professor espera que o aluno se motive a aprender uma série de regras e a fazer um monte de exercícios iguais. Não existe o apelo a coisas que o estudante está acostumado a ver no seu dia-a-dia. E, assim, o jovem vai olhando para a escola como uma coisa chata, desligada da realidade. Já no videogame, ele vê Matemática, gosta e domina. O mundo e a Matemática das crianças e dos adolescentes são mais rápidos. A nossa proposta é dar importância para isso.

CE: Sem rejeitar a Matemática acadêmica?
UA: Exato. A Matemática acompanha a evolução da sociedade, está ligada ao desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da economia. Ninguém vai muito longe se ficar preso ao que já conhece. Quem está interessado em fazer um concurso, arrumar um bom emprego, tem de conhecer aquela Matemática dominante. Agora, para chegar nela, é muito mais tranqüilo se o aluno puder aproveitar o que ele já sabe da sua Matemática diária. Como fazer essa ponte é o grande desafio.

CE: Além de ignorar a etnomatemática, qual a outra crítica ao ensino de Matemática escolar?
UA: Eu acho que o grande erro que muitos cometem em educação é achar que todo mundo tem de saber um mínimo preestabelecido. Não tem! Tem de saber o mínimo para se comunicar, para participar do mundo. Dizer que o aluno tem de saber resolver equação de segundo grau com tal idade é uma bobagem. O que é importante para alguns não é para outros. Outro aspecto é que o ensino de Matemática é muito mais quantitativo (aritmética e álgebra) do que qualitativo. O aluno aprende a fazer cálculos, mas não sabe o que significa o resultado. É como usar a calculadora e achar o resultado absurdo. Você age qualitativamente quando o questiona. Isso porque não perdeu energia no quantitativo, no fazer contas. Essa é a vantagem das calculadoras, você não precisa decorar a tabuada.

CE: E decorar a tabuada não faz parte da aprendizagem?
UA: Não. Use a máquina. Você lembra o número de telefone da sua mãe, não lembra? É um número útil, que você utiliza sempre. Com a tabuada é a mesma coisa. Se ela tiver utilidade, será lembrada.

CE: A introdução da calculadora na sala de aula pode ser a etnomatemática da sociedade contemporânea?
UA: Sem dúvida será. Etnomatemática não é só coisa de índio, africano e artesão. É o cotidiano, e ele está impregnado de tecnologia. Às vezes me perguntam: ‘Quando se dá uma calculadora para uma pessoa?’ Eu respondo: ‘Junto com a mamadeira. Não se preocupe, ela vai fazer alguma coisa com ela’. Muitos resistem, mas a calculadora vai chegar à sala de aula.

CE: A etnomatemática poderia fazer parte de um currículo nacional?
UA: O currículo deve ser resultado do ambiente onde a escola atua. De que interessa falar dos indígenas da Amazônia numa comunidade de tradições africanas? É tão estranho quanto impor essa Matemática fria. Cada ambiente tem a sua tradição.

CE: No livro Etnomatemática – Elo entre as tradições e a modernidade, o senhor afirma que muito da “boa Matemática acadêmica” é inútil. Na sua opinião, o que é inútil nos programas escolares?
UA: É muito difícil dizer. Depende da situação. Sempre há os que vão se interessar e tudo vai parecer útil. Se você fizer um levantamento de tudo o que aprendeu de Matemática na escola, vai ver que muita coisa não serviu para nada. Há quanto tempo você não resolve uma equação de segundo grau? Alguns vibraram com ela e seguiram carreira na área. Por isso, é preciso expor o aluno ao conteúdo formal. A etnomatemática também pode ser inútil. Mostrar como os egípcios contavam fração, por exemplo, é uma curiosidade. Muito do que se faz no ensino da Matemática formal também é curiosidade, só que mais chata e mais difícil.

CE: O conteúdo formal é indispensável?
UA: Muita gente acredita que você precisa saber o formal, para poder dar um passo além e fazer com que a Matemática se relacione com as coisas do dia-a-dia.  Esse é o maior obstáculo para os jovens que não aceitam ter de aprender algo que lhes servirá um dia, no futuro. Eles não querem esperar. O mundo ficou muito rápido e eles rejeitam a Matemática que lhes é apresentada.

CE: O professor rejeita mudar a forma como ensina a Matemática?
UA: Escrever fórmulas na lousa é mais fácil. Essa tecnologia, assim com lápis e papel, vai sendo superada. O professor tem de despertar para isso, ter acesso e utilizar nova tecnologia. Os livros de Matemática reproduzem o conhecimento que emanou da Europa. Há outras fontes culturais. Esse é o trabalho dos etnomatemáticos do mundo todo.

CE: O Brasil ocupa as últimas posições nos exames internacionais que medem conhecimentos matemáticos. Ensinamos mal ou os exames provocam distorções?
UA: Os melhores do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) são os mais treinados.  O Brasil é um país com baixo rendimento nesses exames e nas provas nacionais, mas avança no desenvolvimento científico. Se os resultados dos exames fossem coerentes, não teríamos bons engenheiros aqui. E nós temos muitos. Damos importância demais a essas avaliações.

CE: O que o aluno precisa saber quando termina o ensino médio?
UA: Agora? Se pretende fazer uma universidade, saber como passar nos exames do vestibular, Enem, nem sei os nomes desses exames todos. Caso contrário, a escola é penalizada, ele é penalizado. O estudante está subordinado a esses exames, por isso, ele tem de ser treinado. Em países onde há mais treinamento, os resultados são melhores. Mas o que acontece com o indivíduo? Com a criatividade, a espontaneidade, a habilidade? Muitas vezes o aluno faz uma prova e na semana seguinte não sabe mais resolver o mesmo exercício.

CE: Esses exames não ajudam a detectar as dificuldades dos alunos? Pelos resultados dá para saber se eles dominam fração, por exemplo.
UA: Se você quer que eles aprendam fração, sim. A intenção de toda a avaliação é detectar se alguém sabe fazer alguma coisa que o avaliador quer. É satisfazer o avaliador. Se você acha importante fração, vai reforçar o ensino. E o que acontece? Como todo mundo é razoavelmente inteligente, bons resultados são obtidos quando o estudante é bem treinado.

CE: Qual outro modelo de avaliação possível?
UA: É o que a Unicamp está tentando fazer no vestibular, que não depende de treinamento, e sim de uma cultura mais ampla. Coloca-se a pessoa numa situação nova e vê-se o que ela é capaz de fazer. Aqueles que não conseguirem achar um caminho podem ter experiências mais simples e, aos poucos, adquirir a capacidade de pensar no novo. Se insistirmos na avaliação tradicional, é importante não enganar os alunos e dizer que estão sendo treinados com o objetivo de passar nos testes e provas. Provavelmente, aquilo que estão aprendendo não serve para mais nada.

CE: O senhor abre o jogo com os seus alunos?
UA: Eu não dou mais aulas. Mas meus alunos da pós-graduação me convidam para visitar as classes deles. Essa rapaziada é muito boa. Quem consegue entender isso e se comunicar com eles, não sai mais da profissão. Para ser professor, o sujeito tem de entender o que é o mundo de hoje, as perspectivas dos jovens e adaptar à sua função. Ser professor é partir para o novo, sempre.

CE: Qual a sua maior contribuição como professor?
UA: Acho que essa atitude. O respeito pelo outro, pelo novo, pelo que não é igual. A etnomatemática tem um alcance enorme. O ser humano se comporta matematicamente. A cada vez que se desloca, planeja tempo, distância, organiza a vida. Se eu pudesse nascer outra vez, voltaria a ser professor.

 

Categoria pai: Seção - Entrevistas

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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