Evento de defesa de trabalho final : relações assimétricas
Stella Maris Bortoni-Ricardo
Uma das tradições mais firmemente instituída na cultura da pós-graduação no Brasil, copiada de países com  o status  da pós-graduação bem consolidado, é a defesa oral dos trabalhos  finais _ teses ou dissertações _ mediante uma banca de especialistas que os avaliam. Essa é uma  prática secular. Na Inglaterra, esse evento é denominado “viva”, do latim “viva vox”, e eles pronunciam /vaiva/.
Há programas de pós-graduação que substituíram o requisito da defesa pela publicação de um ou mais de um artigo em  periódico científico com conselho editorial. Isso significa que o candidato autor submete seu trabalho ao crivo do conselho editorial. Tal prática é mais comum nas áreas de ciências exatas. Nas humanidades, ainda prevalece o costume da defesa, ou seja, apresentação a uma comissão de especialistas, escolhida pelo orientador e aprovada pelo programa.
O evento da defesa ou qualificação  de tese  ou dissertação é regido por regras estritas de padrão sequencial. Há um sistema pré-alocado de trocas de turnos raramente desrespeitado. Como Goffman (1976:269) aponta, tais restrições rituais marcam a acessibilidade física e social dos interagentes, definida pelo perfil do falante, avaliação mútua dos interlocutores e pelas relações entre eles. Como também  observa Pêcheux (1978) , cada falante desenvolve uma formação imaginária de seu próprio papel  social e o de seus interlocutores. Ele se pergunta : “Quem sou eu para falar a ele ( ou a ela) assim?”;  “Quem é ele ou ela para que eu lhe fale assim?” (cf. Bortoni-Ricardo, 2011 (“Do campo para a cidade”,(p. 244) .

Prevalece no evento da defesa uma relação assimétrica entre avaliadores e doutorando e mestrando ( ou mesmo aluno concluinte de monografia de graduação). Essa relação pode desencadear situações desagradáveis. As mais comuns costumam resultar de duas circunstâncias. O examinador não ter lido com o cuidado necessário o trabalho, às vezes por falta de tempo, ou ele ou ela se sentir frustrado porque o trabalho sob exame não guarda identidade com o  seu próprio trabalho,  por vezes nem citado.  A frustração  pode conduzi-lo a uma avaliação muito negativa de todo o relatório de pesquisa sob exame. Naturalmente que, para o aluno que está sendo examinado e seu orientador,  isso resulta em forte constrangimento. Novamente vemos as regras de assimetria interacional atuarem e não é raro que  o examinando receba respeitosamente as críticas formuladas. Mas pode ocorrer também que ele rompa com as restrições sistêmicas  e deixe aflorar a força da agência humana, o ser humano como ator livre em suas ações, e enfrente o interrogatório com vitalidade.
Longe de mim negar aos membros de uma comissão examinadora o direito de apontar falhas, limitações, lacunas etc. no trabalho avaliado.  Esse é seu papel precípuo. Só quero deplorar que, às vezes,  a avaliação seja contaminada por questões idiossincráticas.
 Ficam aí estas reflexões sobre o nosso dia-a-dia acadêmico,  a quem interessar possa.


[i]<!--[endif]--> Autores citados :  BORTONI-RICARDO ( 2011). Stella Maris. “Do campo para a cidade”, GOFFMAN,Erving (1976). “ Replies and responses”, Language  in society, vol.5.
PÊCHEUX, Michel (1978). Hacia el analyses  automatico del discurso.
 

 

 

 

 

 

 

 

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